#51 Rui Gama

Rui Gama - Professor e diretor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra | Agosto 2020

Nome: Rui Gama
Naturalidade: Luanda (Angola)
Idade: 53
Formação académica: Licenciatura em Geografia, Mestrado em Geografia Humana, ramo de especialização em Geografia Regional, Doutoramento em Geografia, Universidade de Coimbra
Ocupação Profissional: Professor Universitário, Universidade de Coimbra
Outros: Membro integrado do Centro e Estudos de Geografia o Ordenamento do Território (CEGOT) e Diretor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

1 - Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende
Um livro que li recentemente e que me marcou, ajudando a questionar o porquê de ter escolhido ser geógrafo, foi a biografia de Humboldt (A Invenção da Natureza. As aventuras de ALEXANDER VON HUMBOLDT, o herói esquecido da ciência, de Andrea Wulf, Temas e Debates, 2016). A vida de Humboldt é marcada pela viagem, pelo desejo de viajar e conhecer novos mundos. Explorar, descobrir e conhecer para tudo compreender. Relacionar e compreender considerando o papel do passado e a forma como este molda o presente. Foi um percursor no seu tempo. Revolucionou e moldou a ciência. Via o mundo, os fenómenos naturais e a ação humana, de forma interligada e interdisciplinar. Marcou um tempo e influenciou decisivamente a ciência e os cientistas, a política e a sociedade. A visão de Humboldt antecipou o aparecimento da Ecologia, dos ambientalistas e dos escritores da natureza. Um espírito curioso e atento aos pormenores, procurando sempre comparar, encontrar comportamentos repetitivos e com semelhanças, assente no conhecimento e na utilização de um método sistemático de recolha, medição e registo de dados. E uma incansável energia e ânsia de procurar novas ideias e conhecimento. E conhecer novos lugares. O campo era o seu lugar preferido. A viagem de descoberta, o objetivo permanente de toda a vida. Humboldt viveu num tempo de mudança, excecional, e num contexto social e político desafiante. Um exemplo. A leitura deste livro interpela-nos constantemente. Um livro de aventuras e de descoberta, mas sobretudo uma leitura que nos leva a refletir sobre o mundo atual, das diferenças e desigualdades, das permanências e das mudanças, da antecipação de temas e áreas de investigação e da importância de recolhermos e organizarmos dados, de compararmos e de relacionarmos ideias, contribuindo para o progresso da ciência e influenciando outros a seguirem o seu caminho.

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?
Ser geógrafo é, antes de mais, ter a capacidade de estarmos atentos ao mundo que nos rodeia. Podermos observar e relacionar os fenómenos, integrando conhecimento científico de diferentes áreas. E valorizarmos na investigação análises combinando diferentes escalas. E termos igualmente capacidade crítica e vontade de descobrir e contactar com o desconhecido e aprender. Sobretudo aprender. Como professor universitário e investigador na área da Geografia Humana (Económica), tem sido decisivo utilizar os conhecimentos e competências adquiridas ao longo do tempo na leitura das mudanças que observo na organização espacial e na procura de soluções para problemas cada vez mais complexos e interdependentes. 

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?
Tendo aprendido que a geografia é uma ciência de síntese, de interface entre as diferentes ciências, humanas e sociais, naturais e exatas, a experiência tem-me ensinado que os “outros” valorizam muito, e, atrevo-me dizer, mais do que nós fazemos, o nosso discurso e a nossa prática. E as nossas capacidades e facilidade de integrarmos elementos e práticas diversas nas atividades de ensino e de investigação. É sobretudo no contexto de equipas de investigação interdisciplinar e de projetos de prestação de serviços especializados e de relacionamento com a comunidade/sociedade que a minha condição de geógrafo tem sido reconhecida e valorizada.

4 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?
Em mais de três décadas o mundo mudou muito. O que aprendi nesse tempo, sendo diferente, tem permitido que sucessivamente possa testemunhar a importância que a formação de base tem tido ao longo do percurso e na capacidade de adaptação às mudanças e ao desconhecido. Primeiro e conselho mais decisivo: ter uma formação de base diversificada e consolidada com “alguma” especialização, sempre de acordo com as preferências de cada estudante aprendiz de geógrafo. Também me parece fundamental um domínio de competências técnicas e qualidade de relacionamento interpessoal. Se no passado a geografia servia, no essencial, para ensinar, o que não era pouco e menos importante, hoje tem um papel decisivo na interpretação e na apresentação de propostas que sirvam de apoio à tomada de decisões informadas, assumindo um papel mais ativo num mundo cada vez mais complexo e incerto. A par da responsabilidade em ensinar de forma cada vez mais competente, os desafios e os problemas atuais num contexto em constante e rápida mudança são uma oportunidade para a Geografia, para a formação em Geografia e para os estudantes que escolhem especializar-se em Geografia.

5 - Queríamos pedir-lhe que escolha um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser de âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha, e comente-o, tendo em conta em particular a sua perspetiva e análise como geógrafo.
Neste tempo excecional é impensável não falar da atual situação pandémica. Como geógrafo gostaria de colocar a discussão na perspetiva do modelo de desenvolvimento dominante nas últimas décadas e das estratégias e políticas públicas de desenvolvimento e ordenamento do território e, ainda, como deve ser encarado o futuro. Num quadro em que fomos colocados à prova respondemos, mas ficaram evidentes muitas das debilidades que nem a integração europeia conseguiu mitigar. Seja as desigualdades (económicas, socias e territoriais), seja no modelo de organização institucional e territorial ou, ainda, a capacidade integrada de resposta. É em momentos como o atual que devemos refletir sobre o que queremos para o futuro e como poderemos aproveitar melhor as oportunidades que se começam a desenhar. Quer no ordenamento e qualificação dos territórios e das pessoas, quer no modelo económico e de criação de riqueza ou ainda no nível de organização e gestão territorial. 

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?
O vale do Zêzere e a cordilheira central. Razões pessoais e geográficas. Uma diversidade de paisagens associada ao relevo e à litologia, à tectónica e à ocupação do homem. As serras e os cursos de águas desde sempre condicionaram a ocupação humana. Na atualidade, a evolução demográfica desfavorável tem vindo a ser contrariada pelas estratégias de desenvolvimento que têm sido apoiadas numa dimensão pública de políticas e por investimentos privados. As Aldeias do Xisto, a rede de Aldeias do Xisto e a oferta de atividades, são uma das formas de conhecer um território desde sempre isolado. O contacto com a natureza, um modelado com diferentes formas e o rio Zêzere encaixado e serpenteando as serras, com vistas espetaculares e com os seus meandros, assim como uma gastronomia variada, tradições seculares e a natureza das gentes assumem-se, decisivamente, como atrativos para geógrafos e amantes da natureza. As raízes numa das aldeias do Zêzere são a outra razão, provavelmente mais decisiva nesta escolha.