#48 Alexandra Rodrigues

Alexandra Rodrigues | Maio 2020 

Nome: Maria Alexandra Martins Pinheiro de Magalhães Pereira Rodrigues 
Naturalidade: Porto
Idade: 57 anos
Formação académica: Licenciatura em Geografia (opção Geografia Urbana) U.P.
Ocupação Profissional: Técnica Superior, neste momento em desempenho de cargo dirigente na Divisão Municipal de Informação Geográfica da Direção Municipal de Urbanismo da Câmara Municipal do Porto

1 - Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.
Um dos livros que mais me marcou foi o “Principezinho” de Antoine de Saint-Exupéry. Um livro para todas as idades, apesar de ser considerado de literatura infantil. Uma história de amizade, carregada de lições de vida. À medida que crescemos deixamos de dar valor às pequenas coisas e hoje, mais do que nunca, somos confrontados com uma situação mundial que nos faz pensar nisso. O livro fala da solidão e da procura de afetos. Mostra-nos como muitas vezes erramos na avaliação das coisas e das pessoas que nos rodeiam e confronta-nos com uma série de situações que nos permitem considerar os valores como eixos essenciais para vivermos em sociedade.
“O essencial é invisível aos olhos, e só se pode ver com o coração”. É bastante curioso que um geógrafo faça parte da história, pretendendo retratar todos aqueles que valorizam em demasia o intelecto e o conhecimento, mas não o colocam em prática. Porque o conhecimento por si só não chega, só as vivências e a troca de experiências, originam mais-valias para todos.

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?
O curso de Geografia foi uma boa surpresa, já que este não tinha sido o plano inicial de formação académica. Após começar, cedo percebi que estava no curso certo e que o que era proposto enquanto saída profissional se alinhava com as minhas competências e características. Também a diversidade temática e o largo espectro de desafios fortaleceram o interesse na continuidade. 
Comecei, como a maioria dos meus colegas de curso, por ser professora de Geografia, mas pouco tempo depois surgiu a oportunidade de seguir outros rumos. Passei pela Comissão de Coordenação da Região Norte. Posteriormente ingressei nos quadros da Câmara Municipal do Porto, tendo iniciado funções no Gabinete de Planeamento Urbanístico e, há mais de 20 anos, dirijo a Divisão de Informação Geográfica, onde a informação cartográfica está no centro de todo o trabalho. Em suma, ser geógrafa permitiu experimentar diversos contextos profissionais para os quais a minha formação era requisito indispensável, em grupos alargados de trabalho. 

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?
O reconhecimento nem sempre é imediato. A partir da minha experiência profissional, considero que somos reconhecidos pela nossa capacidade de integrar um largo espectro de conhecimentos e pela capacidade que adquirimos na articulação de várias áreas do conhecimento que vão desde as ciências naturais e físicas às ciências humanas e sociais. 
A capacidade de fazermos abordagens multifuncionais, a várias escalas e ainda uma forte visão integrada, são capacidades muito trabalhadas na nossa formação académica, e que fazem dos geógrafos técnicos diferentes. Normalmente são-nos reservadas funções ao nível da recolha (trabalho de campo), estruturação e análise da informação e somos reconhecidos pela capacidade de mapeamento e analise a várias escalas, cada vez mais apoiadas em ferramentas SIG, fundamentais no apoio à decisão.

4 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?
A um jovem que estivesse a ingressar no curso de Geografia, diria que, como em muitos outros cursos, é natural que a entrada seja menos animadora que o esperado, quer pela componente técnica que é preciso introduzir, quer pela abrangência da disciplina. Diria também que as bases dadas nos primeiros anos se revelarão fundamentais e que, assim que o interesse por determinada área específica se comece a revelar, o curso ganhará novo ritmo e maior interesse. Temos em Portugal uma docência de qualidade elevadíssima, pelo que será, seguramente, muito bem orientado para o futuro promissor que o espera no mundo do trabalho. 
Quanto às perspetivas para a sociedade do futuro, diria que as oportunidades tenderão a aumentar. Os projetos requererão uma postura abrangente e uma capacidade de análise multidisciplinar. Especificamente, em relação às funções a desempenhar no futuro, de acordo com a importância crescente e inadiável do planeamento territorial e urbano, perspetiva-se o aumento da incorporação de geógrafos nos processos de tomada de decisão. 

 5 - Queríamos pedir-lhe que escolha um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser de âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha, e comente-o, tendo em conta em particular a sua perspetiva e análise como geógrafo.
Neste momento não poderia escolher outro acontecimento que não fosse a pandemia por COVID 19 em que nos encontramos. Deverá ser um momento de reflexão de toda a sociedade sobre os nossos estilos de vida. 
Em primeiro lugar, relativamente ao meio ambiente, o nível de poluição a que chegámos há muito que preocupa quem o estuda, uma poluição que vimos recuar drasticamente em poucos dias, assim que a quarentena se impôs. A alteração do meio ambiente e os habitats naturais ameaçados pela mercantilização deverão ser uma preocupação global que nos deve envolver a todos individualmente. É urgente uma alteração de comportamentos. 
Em segundo lugar, a melhoria e reforço da articulação intermunicipal. O entendimento de que a dinâmica dos municípios extravasa os seus limites territoriais e que, por isso mesmo, tal como o dia-a-dia das pessoas se divide entre vários municípios (onde habitam e onde trabalham), deve fazer-se em articulação com os seus vizinhos. Quererá isto dizer, neste caso em particular de um problema de saúde pública, que deverá ser reforçado o entendimento conjunto de medidas de contenção e apoio, futuramente, expandindo a outros domínios, por exemplo, para projetos públicos em terrenos limítrofes, vias de transporte ou aplicação sincronizada de financiamento público. Enquanto geógrafos, aprendemos a cultivar o olhar atento não só sobre o território natural e construído, mas também sobre o uso do espaço em geral, que no fundo é outra forma de construir, quando “space” (espaço) é apropriado e se torna “place” (lugar). 
Por último, mas não menos importante, o uso dos dados. Para um geógrafo a análise de dados é algo de fundamental. Nesta fase, em que somos confrontados com uma avalanche de números, interessa sobretudo que a análise seja eficaz e, por isso, precisa assentar em pontos-chave: a fiabilidade na aquisição, a utilização de modelos e ferramentas adequadas e ainda a apresentação de resultados de forma organizada e sistematizada, de modo a que permita ações mais céleres e eficazes. É também fundamental que se faça uma boa monitorização, o que facilitará o mapeamento e a antevisão de cenários futuros, funções perfeitamente ajustadas ao perfil de um geógrafo.
Em geral, será de esperar que o impacto socioeconómico, político, cultural e ambiental desta pandemia provoque alterações na sociedade. Parece-me fundamental que se interprete este momento como uma oportunidade para operar mudanças há muito necessárias. 

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?
Sendo do Porto, cidade que conheço profundamente, quer pela profissão que exerço há largos anos, quer pelo vínculo emocional que me une, recomendaria a cidade para uma saída a campo. O Porto apresenta-se como espaço muitíssimo rico para análise de campo. Há, na cidade, um entendimento claro da influência da localização geográfica nas características basilares de um território. O seu posicionamento, entre rio e mar, marca a sua natureza mercantil e a sua proximidade ao Minho e ao Douro, a sua natureza cultural. 
Um outro aspeto que enriquece a visita a campo é a confrontação de duas dinâmicas distintas: a permanência e a mudança, que são tão claras no Porto. A permanência de vestígios de diferentes épocas históricas como a muralha gótica,  o projeto urbano de João de Almada, a judiaria, a alfândega, as indústrias do século XIX, as antigas quintas da cidade e até lojas centenárias como a livraria Lello e as mudanças mais recentes e aceleradas como o despovoamento da Baixa e frente ribeirinha, a intensificação do turismo, o interesse crescente de investidores estrangeiros ou a evolução do sistema de transportes. Estou certa de que a sua longa e riquíssima História, as suas gentes e a sua diversidade espacial seriam com certeza mote de muitas e enriquecedoras saídas de campo.