#46 Luís Conceição

Luís Conceição | Março 2020 

Nome: Luís Manuel Gonçalves da Conceição
Naturalidade: Setúbal
Idade:41
Formação académica: Licenciatura em Geografia e Planeamento Regional; pós graduação em Deteção Remota e Sistemas de Informação Geográfica (UNL – FCSH)
Ocupação Profissional: Geógrafo no Departamento de Ação Social e Saúde da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa 
Outros: Pai, praticante de desportos do disco e músico (muito) amador.

 

1 - Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.
Recentemente li o “Sapiens – História Breve da Humanidade” do historiador israelita Yuval Harari. É um livro que recomendo, de leitura acessível e agradável, com ideias que me surpreenderam e uma visão bastante integrada, diria quase sistémica da “propagação” desta espécie que é a nossa (e que em dados períodos não foi a única humana na Terra). Entre as ideias mais interessantes ou provocadoras destaco a noção do intangível enquanto “mito” cultural, aplicada até à própria moralidade (adquirindo esta, por isso mesmo, um carácter meramente utilitário); a noção de que a Revolução Agrícola pode ser entendida como uma domesticação do Sapiens pelos cereais, uma vez que estes permaneceram relativamente inalterados, passando a ocupar uma superfície muito maior, ao passo que as alterações ao modo de vida do Sapiens foram enormes; e a revelação de que, ainda enquanto caçador-recolector nómada, onde quer que o Sapiens chegava pela primeira vez, ocorriam extinções em massa.  

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?
Para mim, ser geógrafo tem sobretudo que ver com ter uma abordagem à compreensão dos fenómenos que seja simultaneamente espacial e integrada, ou abrangente, se preferirmos, no sentido de não se limitar a explicações de uma só natureza (económica, social, climática, geológica, etc.). Esse olhar abrangente já era o que procurava apurar aquando da minha primeira experiência universitária, em Filosofia (variante História das Ideias), que não concluí. Creio, portanto, que a consideração permanente do Espaço, ou melhor do Território, como denominador comum a uma variedade de fenómenos, constituiu um aprimoramento dessa abordagem que sinto que faz parte da minha identidade. Ora, no dia-a-dia, isso está presente em tudo. Por absurdo, quando vejo a previsão meteorológica, sou capaz de a analisar à luz do anticiclone dos Açores ou dos eventuais efeitos agravados das restrições orçamentais sobre o funcionamento das estações de recolha de dados meteorológicos no interior do país (não existiu qualquer preocupação com a plausibilidade neste exemplo). No que fiz e no que faço profissionalmente, a formação em Geografia proporcionou-me um ponto de partida sólido do ponto de vista dos Sistemas de Informação Geográfica, da Estatística e da Demografia, que se tem revelado importante. A dinâmica de trabalho em grupo que vivi durante a Licenciatura também me permitiu desenvolver competências relacionais e hábitos de trabalho muito úteis em contexto profissional.    

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?
Inicialmente, também devido à escassez de geógrafos no local onde trabalho, essa formação era constantemente mencionada, mas sobretudo associada aos Sistemas de Informação Geográfica. Com o decorrer dos anos, a plasticidade e a facilidade de aprender demonstrada não só por mim, mas por vários colegas geógrafos que ainda estão, ou passaram pela instituição, fizeram-nos úteis noutros contextos não tão específicos, como em sistemas de informação generalistas ou no desenvolvimento comunitário. Ainda assim, pessoalmente, fiquei bastante satisfeito por participar de processos estratégicos de reorganização territorial da atividade, bem como na revista da instituição, com artigos acerca dos SIG. Considero que em ambos casos isso apenas foi possível com o reconhecimento da minha área de formação. 

4 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?
As perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro são extremamente animadoras, sob os mais variados pontos de vista. Do ponto de vista da empregabilidade, da utilidade para a resolução dos prolemas mais importantes que a sociedade enfrenta e, até, da satisfação pessoal. Essa satisfação começa logo, diria eu, durante os anos de formação, para os que são natural e avidamente curiosos. Acredito que a formação universitária em Geografia desenvolve as competências de partida para inúmeras escolhas de carreira, o que com a longevidade atual das pessoas e o ritmo de mudança das oportunidades no mercado de trabalho, constitui uma vantagem. 

5 - Queríamos pedir-lhe que escolha um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser de âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha, e comente-o, tendo em conta em particular a sua perspetiva e análise como geógrafo.
Como geógrafo e como pai, nos dias de hoje considero o aquecimento global como o tema que é meu dever destacar, não só pelas implicações físicas do fenómeno, como pelas ligações que tem a muitos outros temas centrais da atualidade. Enquanto tema, obviamente estou a considerar o padrão de aumento da temperatura média global, em terra e nos oceanos, registado sensivelmente desde a Revolução Industrial e de origem antrópica, via emissão de gases com efeito de estufa. Do ponto de vista da ciência climática é necessário desmontar o mito do senso comum de uma Natureza em equilíbrio – que consiste na ideia de que para cada movimento existe um ou mais movimentos de feedback negativo, i.e., que o contrariam praticamente anulando o primeiro movimento e mantendo o equilíbrio. Segundo os dados mais recentes, os últimos 5 anos foram os mais quentes desde que há registo. Ora, isto significa que os “estabilizadores automáticos” como os oceanos, que têm uma capacidade muito superior para a retenção de carbono, ou as superfícies geladas do Ártico e Antártica e o seu albedo elevado, para dar apenas dois exemplos, perderam a sua capacidade regulatória, podendo estar agora a funcionar como mecanismos de feedback positivo do aquecimento global, através da libertação direta de carbono ou de um aquecimento mais rápido da superfície descoberta. Outros mecanismos chave como o sequestro de metano no permafrost da Sibéria, parecem estar também em risco de colapsar, com consequências imprevisíveis. Poderia juntar ainda o aumento das emissões diretas e a redução da capacidade para o sequestro de carbono provocado pelos gigantescos incêndios florestais como ainda outros mecanismos de feedback positivo que alimentam o aquecimento global. Todas as evidências apontam, portanto, para um agravamento muito mais rápido do fenómeno, de forma irreversível no espaço do próximo século ou séculos. 
Significa isto que nada possa ou deva ser feito? Não. De todo. Em primeiro lugar, porque a alimentação humana depende de condições climáticas. Em segundo, porque ainda poderemos reduzir a dimensão do fenómeno e mitigar os seus efeitos. Mas, para isso, necessitamos de ação política decisiva e imediata. E nem necessitaria de ser global, uma vez que, quer as emissões relativas à produção, quer, sobretudo as relativas a consumo, são muito desiguais entre países, sendo um espelho fiel de outro dos grandes problemas da Humanidade: a desigualdade económica. A solução passa portanto por maior justiça climática e em última análise por maior regulação económica e financeira. Por último, temos a evidência de que a ação política concertada e imediata, muito mais do que a alteração de comportamentos individuais (porque morosa e sujeita a campanhas de desinformação) pode ter efeitos concretos na resolução de problemas ambientais e, neste caso, também relacionados com a composição da atmosfera: a redução do dito “buraco” da Camada de Ozono através da proibição dos clorofluorcarbonetos (CFC’s). Como geógrafos e cidadãos não podemos, portanto, ser complacentes com qualquer espécie de negacionismo e temos a obrigação de combater a desinformação e a retórica relativista (e votar em conformidade com a importância da matéria).

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?
Para saída de campo em Portugal recomendaria a Ilha do Faial, tendo como ponto alto a visita ao Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos. Sendo uma área com vulcanismo ativo num passado muito recente e respetiva sismicidade associada, inclusivamente nos últimos meses, considerando também a importância histórica para a geografia portuguesa da expedição de estudo da erupção dos Capelinhos de 1957, integrada pelo Professor Orlando Ribeiro e pela Professora Raquel Soeiro de Brito, entre outros, creio que seria uma experiência de aprendizagem muito rica nos domínios próprios da geomorfologia, mas de toda a Geografia Física em geral. A visita à caldeira no centro da ilha, uma saída para observação de cetáceos, eventualmente complementada com uma visita à ilha vizinha do Pico (30 minutos de travessia) e em particular ao Museu da Indústria Baleeira em São Roque do Pico poderia constituir experiência muito interessante do ponto de vista da Geografia Humana e da Ecologia.