#45 Rosa Branco

Rosa Branco | Fevereiro 2020 

Nome: Rosa Branco
Naturalidade: Lisboa
Idade: 42
Formação académica: Doutoramento em Geografia e Planeamento, com especialização em Economia e Sociedades (FCSH/Universidade Nova de Lisboa)
Ocupação Profissional: Técnica superior da administração local, Chefe da Divisão de Gestão de Informação Georreferenciada
Outros: Investigadora no CICS.NOVA - Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais.
 
1 - Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.
Na infância e adolescência, era grande consumidora de livros de aventuras e literatura de viagens. Gostaria de recomendar um livro que li na segunda metade dos anos 90, nos tempos de faculdade, e através do qual me reencontrei com essa literatura: Patagónia Express, de Luís Sepúlveda. Foi lido como geógrafa em formação, que se identificou totalmente com um autor que percorre, descobre e reinterpreta o seu país.
 
2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?
A condição de geógrafa tem-me dado ferramentas valiosas para desenvolver a minha actividade profissional, nomeadamente quando me deparo com problemas complexos ou com o desafio de transpor conceitos abstratos para uma realidade concreta. A Geografia prepara-nos para lidar com a complexidade sem perder a visão abrangente e dá-nos o treino na leitura espacial dos fenómenos, que é um poderoso instrumento de síntese e explicação. Isso é um grande trunfo no dia-a-dia profissional, principalmente em contextos multidisciplinares. Do ponto de vista pessoal, ter esta formação é um privilégio, porque amplifica uma série de experiências, como, por exemplo, viajar. Um geógrafo está em saída de campo desde o momento em que põe o pé fora de casa e isso nota-se no gozo que todos nós temos em percorrer pequenos e grandes caminhos.
 
3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?
As perspectivas de outras formações sobre o trabalho do Geógrafo são diversificadas. Há 20 anos atrás, no contexto de trabalho de uma autarquia, prevalecia a visão do geógrafo como “fazedor-de-mapas”, a quem se encomenda a representação dos fenómenos que depois outros usam para desenvolver os grandes pensamentos. Mas sempre que era dado espaço aos contributos dos geógrafos surgiam boas propostas, perspectivas interessantes e foi crescendo a fama de que éramos bons na síntese, na análise e na revelação de realidades escondidas. Na área tecnológica, onde mais trabalho hoje em dia, há um grande interesse e respeito pelo nosso trabalho e somos muito solicitados pela capacidade de lidar com as especificidades técnicas que a informação geográfica tem, no contexto dos sistemas de informação. 
 
4 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?
A um jovem universitário recordaria que tem à sua disposição os meios para saber mais e compreender melhor do que nunca. Diria ainda que os grandes desafios sociais e ambientais não são tão difíceis de superar quanto os fazem parecer. Sinto que temos de dar confiança a esses jovens para porem as mãos à obra. A um geógrafo em exercício diria a mesma coisa, porque acredito que temos de combater a acomodação e ligar a nossa experiência às aspirações e ambições dos mais jovens.    
 
5 - Queríamos pedir-lhe que escolha um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser de âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha, e comente-o, tendo em conta em particular a sua perspectiva e análise como geógrafo.
Confesso que me sinto pouco à vontade para comentar acontecimentos neste formato, por isso peço emprestado um episódio aparentemente prosaico, mas exemplar. No ano passado tivemos um início de verão fresco e húmido, que deu azo a muitas notícias nos meios de comunicação social. Um certo dia, num noticiário da tarde, foi dada a palavra a um colega da Universidade de Coimbra (cujo nome não me recordo) especialista em climatologia, a quem pediram para comentar as previsões sobre o estado de tempo nos meses seguintes, a relação deste fenómeno com as alterações climáticas, etc etc. O Geógrafo em directo conseguiu desviar as tentativas de simplificação da questão e, com muita calma, explicou os fundamentos da circulação atmosférica no Atlântico Norte e sua relação com a precipitação, desmontou as previsões (ou antes, boatos) que circulavam e, em resumo, trouxe para a discussão aquilo que se deve pedir a um cientista naquela situação: rigor e clareza na comunicação.
 
6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?
Recomendaria o miradouro de São Leonardo de Galafura. Não vou lá há muitos anos, mas na minha memória é um dos melhores pontos de vista sobre a alma e o engenho portugueses. Claro que deve tomar-se o caminho mais longo, caso se viaje de automóvel a partir do litoral, dando espaço para apreciar o Portugal Atlântico. Sugeria uma segunda saída, complementar, à cidade de Olhão, com abordagem a partir do Barrocal e terminando numa expedição pela Ria Formosa. Neste caso, além de absorver o Portugal Mediterrâneo, o desafio seria reflectirmos sobre estas comunidades que se reinventaram de forma dramática várias vezes no último século e que constroem agora uma nova ligação com o mar e os seus recursos.