#44 Jorge Ricardo Pinto

Jorge Ricardo Pinto | Janeiro 2020 

Nome: Jorge Ricardo Ferreira Pinto
Naturalidade: Porto
Idade: 44
Formação académica: Geógrafo
Ocupação Profissional: Professor Coordenador da licenciatura em Turismo

1 - Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende
Naturalmente, não foi fácil escolher um livro perante uma possibilidade de escolha tão vasta e sem um critério restritivo. Assim, depois de muita indecisão, e porque estou sobretudo a falar para geógrafos, decidi optar por recomendar a obra “The continuing city – urban morphology in western civilization” do geógrafo americano James E. Vance, JR. E faço-o por três razões diferentes. A primeira está relacionada com a importância que a obra teve no meu percurso dentro da Geografia e pelo meu interesse em particular na morfologia urbana. É uma publicação do distante ano de 1990, que revê e actualiza uma primeira edição do autor de 1977, intitulada “This scene of man: the role and structure of the city in the geography of western civilizations”, e que eu li tarde no meu percurso académico, já no século XXI. Todavia, a qualidade e profundidade da obra, a capacidade descritiva e analítica do autor, o volume de informação relevante é tal que é um autêntico manual de Geografia Urbana Histórica, com uma abordagem cultural e morfológica dos aglomerados urbanos, numa interpretação do espaço que não se limita a olhar para os registos passados como peças de arte ou elementos pitorescos mas como documentos explicativos da construção dos lugares. Uma segunda razão para a escolha desta obra é o facto de ela ter quebrado alguns preconceitos que eu tinha (que todos temos, na verdade…) na conexão a determinadas linhagens metodológicas ou abordagens ao conhecimento. Em muitas investigações, acabamos por seguir um trilho de genealogia académica, filiada numa determinada escola, academia ou país, uma vez que na leitura científica saltamos de bibliografia em bibliografia até darmos um nó que fecha o circuito. Ora, muitas vezes, esse percurso que fazemos circunscreve-se a um conjunto de académicos que seguem uma determinada linha ideológica, metodológica ou até de proximidade geográfica, excluindo outras perspectivas e paradigmas. Neste caso, a geografia feita por americanos era um território estrangeiro para mim, eu que acompanhava sobretudo o trabalho desenvolvido por ingleses, alguns franceses e, naturalmente, por geógrafos portugueses. A terceira razão para a escolha deste livro é porque queria escolher um clássico, produzido num tempo em que era possível demorar um longo período a escrever um livro, sem a pressa incontrolável de fazer mais um artigo científico ou um relatório para um projeto, sem a necessidade de preencher um conjunto de regras pré-formatadas e castradoras da liberdade e criatividade metodológica, sem a obrigação de agradar a um sistema dito científico, estabelecido e normalizado. Muitas destas obras, hoje vistas como seminais por alguns, mas negligenciadas por um largo espectro de investigadores, tinham a capacidade de poder amadurecer as reflexões e as análises de uma forma que hoje é praticamente impossível, mantendo-se no tempo como bastiões do conhecimento e bases fundamentais da interpretação dos lugares. Numa altura em que somos pressionados a ler apenas o que foi escrito ontem, achei por bem sublinhar a importância de uma obra com tempo: tempo de amadurecimento, tempo de produção, tempo de consistência. 

 

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?
O meu dia-a-dia é essencialmente o de exercer a docência em geografia e turismo e, desse ponto de vista, ser geógrafo de formação não é, creio eu, muito diferente de ser formado noutras áreas do saber. Enquanto professor de geografia tenho a obrigação (e a alegria) de ajudar os estudantes a alcançarem os conhecimentos e competências próprias da nossa formação, não só do ponto de vista científico, mas também na capacidade de o estudante reflectir sobre o que o rodeia, tanto do ponto de vista natural como humano, mas também no despertar de sensibilidades e tolerâncias. Mas, para além da docência, exerço também a coordenação de uma licenciatura e a co-coordenação de um mestrado e, nesse domínio, talvez de forma surpreendente, a minha formação em Geografia tem um papel importante no meu desempenho. Enquanto área disciplinar que congrega muitos saberes, que nos obriga a conhecer, lidar e interpretar com diferentes áreas do conhecimento, o geógrafo está naturalmente preparado para esse papel de coordenação, equilibrando interesses, perspectivas e ambições, combinando formas diferentes de observação de um objeto de estudo ou de um projeto de trabalho. Muitas vezes, no meu quotidiano, sinto essa capacidade de fundir as divergências e aproximar opostos, numa aptidão que creio que herdei da geografia. Identifico a mesma competência noutros trabalhos que tenho desenvolvido, quer na consultoria em planeamento, quer em atividades como as visitas guiadas pela cidade do Porto, em que a minha abordagem aos lugares parte de uma base territorial na compreensão do tempo longo, enquanto muitos outros guias tomam a história como ponto de partida e estabelecem o espaço, em muitas situações, como um mero cenário onde a acção decorre. Esta oposição é notada por parte daqueles que fazem os percursos comigo e sublinham, com frequência em contactos particulares, a vantagem de uma leitura em que a Geografia importa, como diria a geógrafa britânica, Doreen Massey.  

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?
Há um reconhecimento do papel e da importância da visão do geógrafo, mas confesso que, em muitos casos, há também um desconhecimento sobre as nossas competências, a nossa metodologia e a nossa forma de entender o espaço e a sociedade. De uma forma simples, frequentemente respeitam-nos sem saber concretamente porquê. Creio que há algumas razões que explicam esse aparente paradoxo: considerar sem conhecer. Por um lado, o geógrafo é visto como um académico, conhecedor e culto, por vezes fechado na produção cartográfica ou num trabalho de biblioteca. Esse cliché é fruto de um certo apagamento do geógrafo do espaço público durante muitos anos, pontuado apenas pela figura mitificada de Orlando Ribeiro. Ao longo da segunda metade do século XX, e apesar de figuras de extraordinário mérito como Jorge Gaspar ou José Manuel Pereira de Oliveira, entre outros, os geógrafos que compunham o grosso dos licenciados estavam nas escolas ou nas universidades, fazendo o seu trabalho competentemente mas sem especial protagonismo mediático, encerrando a disciplina numa lógica académica. Nos últimos anos, o geógrafo tem ganhado um protagonismo notável, desde logo pelo papel de Célia Ramos e João Ferrão como Secretários de Estado do Ordenamento do Território; pelo mediatismo de José Alberto Rio Fernandes ou Álvaro Domingues no espaço mediático; e, mais recentemente, pelo prémio Pessoa para Miguel Bastos Araújo, entre outros geógrafos que se têm notabilizado em diferentes áreas. Nos últimos anos, a Associação Portuguesa de Geógrafos, depois de um período de alguma letargia, tem surgido no espaço mediático, criando iniciativas múltiplas e chamando para si um protagonismo que impõe e clarifica o papel do geógrafo, nas suas múltiplas funções e valências, dissipando dúvidas que, efectivamente, aqui e ali ainda são possíveis de encontrar por parte de colegas e parceiros de trabalho.  

4 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?
Creio que o Geógrafo tem uma enorme responsabilidade nos braços e que, paulatinamente, essa responsabilidade será cada vez mais reconhecida pela sociedade. Nunca como na actualidade se discutiu tanto o futuro do planeta, infelizmente pelos piores motivos, mas obviamente que o cientista da Terra, aquele que a observa e interpreta, que a pensa e planeia terá, daqui para a frente, um papel decisivo nesse destino. Há maior responsabilidade e oportunidade que esta? Há maior motivação para quem arranca uma formação em Geografia? Para além dessa sensibilidade ambiental, o geógrafo está também preparado para outras dimensões de especial relevância na contemporaneidade como, por exemplo, na área do património e das identidades territoriais, das migrações e do turismo. Compreender o espaço sem estar preso apenas à geomorfologia, ao percurso da água, à análise artística, à antropologia ou à história, mas sendo capaz de combinar todas estas dimensões (e umas quantas outras) para assimilar os fenómenos na sua globalidade é uma competência inigualável e de enorme importância nos tempos que se avizinham. A um estudante, por isso, eu falaria da alegria do conhecimento, da responsabilidade do cargo e da capacidade que terá quando tiver concluído a sua formação, num espectro muito mais largo que aquele que nos querem, por vezes impor, restrito ao indivíduo que se limita a ser um técnico de cartografia ou que faz uns levantamentos de dados. Seremos isso também. Mas isso e muito mais. 

5 - Queríamos pedir-lhe que escolha um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser de âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha, e comente-o, tendo em conta em particular a sua perspectiva e análise como geógrafo.
Muitos dos temas e notícias que quotidianamente invadem o espaço público têm uma enorme componente espacial. De facto, a geografia é o colo onde a vida se desenrola, pelo que é também, ao mesmo tempo, causa e consequência de muitos fenómenos sociais do nosso quotidiano. Não é fácil, por isso, selecionar apenas um tema ou uma notícia. Ao ler a pergunta, contudo, imediatamente me ocorreu o debate actual em torno dos refugiados, nomeadamente os africanos e do Médio Oriente que se deslocam para a Europa, numa altura em que o frio invade a zona temperada do Hemisfério Norte. É, por isso, um tema eminentemente geográfico, seguramente político, mas claramente de base territorial. É um tema que coloca em causa conceitos e preconceitos associados às fronteiras e aos limites, da noção de estranho e estrangeiro à de densidade e competição, entre o “Espaço Vital” de Ratzel e a “Tese da Fronteira” de Turner. Mas é também um ponto de tensão entre aculturação e identidade, permitindo a malograda recuperação de leituras xenófobas e de intolerância, de fechamento e marginalização, até de uma certa demissão da Humanidade para com a compaixão e a solidariedade. Enquanto geógrafo, confesso, sobram-me tantas dúvidas: A quem pertence o espaço afinal? Com que autoridade uma nação fecha as suas fronteiras a um ser humano que sobrevive em dificuldades e que almeja aquela terra? Que papel deverá ter a geografia na solução destes problemas, tanto nas causas como nas consequências do país emissor e do país receptor? Que novas dimensões e porosidades devem ter as fronteiras?   

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?
Recomendaria o Douro, do Parque Internacional ao Porto, porque é um mundo dentro do mundo, uma região vidaliana, onde a teia de relações, naturais e humanas, se perde no tempo, onde a acção do Homem e o ziguezagueante vale fluvial produziram uma paisagem tocante e arrebatadora. O Douro é uma síntese geográfica, pelo que dele aprendemos dos movimentos das vertentes, da geologia e do clima, no que à geografia física diz respeito, mas também dos movimentos migratórios, dos cais de acostagem e das aldeias vinhateiras, numa visão da geografia humana. Um espaço estruturado pela parte final da maior bacia hidrográfica da Península Ibérica que termina numa cidade fascinante que se ergueu, em larga medida, com as receitas dos produtos cultivados, colhidos, concebidos e manufacturados no Alto Douro, ao longo de séculos, e com quem, ainda hoje, mantém uma relação privilegiada como se só de um corpo se tratasse (Porto-Gaia-Alto Douro). Diria, inclusivamente, que uma visita ao Douro, devidamente interpretada e analisada, com tempo para a desfrutar e aprofundar, é uma espécie de micro licenciatura em Geografia pelo tanto que podemos aprender sobre geomorfologia, hidrografia e biogeografia, ali na quinta do Vesúvio; uma aula sobre demografia, urbanização e história urbana, em Vila Real ou em Lamego; palestra, do alto da Galafura, sobre socalcos e agricultura, dominada pela vinha, mas também pelas oliveiras, amendoeiras, citrinos e outras frutas; uma lição sobre enologia e a indústria alimentar, no Pinhão; sobre etnografia e cultura, junto à foz do Tua; ou então evidências da importância dos transportes na configuração e desenvolvimento do espaço, na navegação ou na ferrovia, junto ao cais da Régua. Enfim, uma imensidão de exemplos para uma eternidade de temas. E depois, para além disto tudo, o Douro tem uma beleza indescritível e uma força paisagística inigualável, um “excesso da natureza” e um “poema geológico” como lhe chamou Miguel Torga.