Em jeito de homenagem | Celeste Coelho: pioneira da Geografia Física e fonte de inspiração de gerações

Em jeito de homenagem
Celeste Coelho: pioneira da Geografia Física e fonte de inspiração de gerações
(Fonte: https://www.ua.pt/pt/noticias/0/40614)
A Professora Celeste Coelho licenciou-se em Geografia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1970, e obteve o grau de Doutora em Geografia pela University of Aberdeen (Reino Unido), em 1980. Em 1998, realizou provas de agregação na Universidade de Aveiro, instituição onde desenvolveu a sua carreira académica: foi professora auxiliar entre 1985 e 1991, professora associada de 1991 a 2000 e professora catedrática desde 2000, encontrando-se jubilada desde 2014.
Reconhecida como uma das primeiras geógrafas portuguesas com projeção internacional, destacou-se nas áreas da Hidrogeomorfologia, Geografia Física Aplicada, Planeamento e Gestão de Recursos Naturais, Hidrologia e Gestão Integrada de Bacias Hidrográficas, Processos de Desertificação e Degradação do Solo — nas suas dimensões ambiental e socioeconómica — e Planeamento e Gestão de Áreas Costeiras. Desde a década de 1990, liderou numerosos projetos nacionais e internacionais financiados em regime competitivo.
Entre esses projetos, destaca-se o IBERLIM (EV5V-0041 — Land Management Practices and Erosion Limitation in Contrasting Wildfire and Gullied Locations in the Iberian Peninsula), financiado pela Commission of the European Communities no âmbito do programa Technological and Natural Risks. Desenvolvido entre 1992 e 1994 sob a coordenação de Celeste Coelho, este projeto contou com a parceria da University College of Swansea (Reino Unido), da Universidad Politécnica de Madrid (Espanha) e da University of Plymouth (Reino Unido), tendo incidido sobre áreas ardidas, com o objetivo de identificar práticas de uso do solo menos prejudiciais e avaliar a possibilidade da sua aplicação generalizada na região mediterrânica.
Destacam-se igualmente o projeto “Ambiente Atmosférico em Zonas Costeiras: Avaliação da Capacidade de Carga do Ecossistema”, financiado pela JNICT e coordenado pela Universidade de Aveiro, com a colaboração do Instituto de Ciências da Terra e do Espaço, do Instituto Superior de Agronomia e do Instituto de Meteorologia; bem como o projeto “Remoção de Mato das Florestas numa Perspetiva de Prevenção dos Fogos e de Aproveitamento Energético” (STRD B/C/AGR 20092), cofinanciado pelo Estado Português e pela Comunidade Económica Europeia (FEDER/STRID/JNICT), também coordenado pela Universidade de Aveiro, em colaboração com a Câmara Municipal de Mação, a University College of Swansea (Reino Unido) e o Comité International Jean Pain (Bélgica).
Enquanto geógrafa de reconhecido prestígio internacional, organizou, em 1995, no âmbito da União Geográfica Internacional (UGI), a Conference on Erosion and Land Degradation in the Mediterranean (M.E.D.), realizada no Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro.
António Bento Gonçalves
Foi em 1993 que conheci a Professora Celeste Coelho, quando, na qualidade de bolseiro de investigação, passei a integrar a sua equipa no Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro e a colaborar nos seus muitos projetos.
A última colaboração científica ocorreu entre 2007 e 2010, quando, sob a sua coordenação, e eu já Professor Auxiliar na Universidade do Minho, desenvolvemos o projeto “RECOVER”, financiado pela FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia (PTDC/AGR-AAM/73350/2006), que visava desenvolver estratégias de remediação de solos imediatamente após a ocorrência de incêndios florestais.
Recordo a geógrafa brilhante, precursora no estudo de diversos temas, inovadora nas metodologias de investigação, quer nas técnicas de campo, quer nas práticas laboratoriais, sempre com um sorriso sereno e uma palavra simpática e de incentivo para os seus estudantes de doutoramento e bolseiros de investigação.
O seu constante incentivo e enorme reconhecimento internacional permitiam-nos contactar com cientistas de outros países, quer os (então) mais jovens (ex.: A. Cerdá, S. Doerr, X. Úbeda), quer os (já muito) consagrados (ex.: M. Sala, R. Fantechi, D. Peter, P. Balabanis, J. L. Rubio, R. Shakesby, R. Walsh), e deslocarmo-nos a universidades estrangeiras, como a Universidad Politécnica de Madrid, a University College of Swansea, a University of Plymouth, ou frequentar, entre outros, o “European School of Climatology and Natural Hazards Course” (European Commission, Directorate-General XIII).
A contribuição da Professora Celeste Coelho para a Geografia Portuguesa foi fundamental, especialmente em duas vertentes: 1) a consolidação da Geografia (Física), a nível nacional, como uma ciência com metodologias quantitativas, quer no trabalho de campo, quer no laboratório, quer ainda no trabalho de gabinete; 2) o reconhecimento da Geografia (Física) portuguesa no contexto internacional.
Adélia Nunes
Conheci a Doutora Celeste Coelho, posteriormente, em 2001, na qualidade de arguente da minha dissertação de mestrado, dedicada ao estudo dos incêndios na Serra da Estrela. Viria, mais tarde, a orientar a minha tese de doutoramento, num percurso académico e humano que foi decisivo para a minha formação.
Com ela aprendi lições fundamentais que continuam a orientar a minha vida académica e pessoal. Do ponto de vista científico, incutiu-me um profundo sentido de rigor, a exigência na formulação de problemas e na interpretação de resultados, bem como a importância da inovação metodológica. Ensinou-me a valorizar o trabalho de campo como elemento estruturante da investigação geográfica, articulando-o de forma consistente com o trabalho laboratorial e de gabinete. Sublinhava, de forma constante, a necessidade de publicar em contextos internacionais e de participar ativamente em fóruns científicos, promovendo uma inserção plena da investigação desenvolvida em Portugal nas redes e debates internacionais.
Do ponto de vista humano, destacava-se pela forma como abordava questões complexas com leveza e serenidade, transmitindo confiança mesmo em momentos de maior incerteza. O seu sorriso, sempre presente, funcionava como um estímulo discreto, mas profundamente eficaz. Era uma líder pelo exemplo, pela competência e pela capacidade de mobilizar equipas, sem necessidade de afirmação hierárquica. Sabia escutar, orientar e desafiar, criando um ambiente de trabalho exigente, mas simultaneamente estimulante e humano.
Mais do que uma orientadora, foi uma referência académica e pessoal, cujo legado continua presente na forma como encaro a investigação, o ensino e a relação com os outros.
Muito obrigada Doutora Celeste!






