#55 Paula Ribeiro

Paula Ribeiro - Trabalhadora Independente | Dezembro

Nome: Paula Cristina Silva Ribeiro
Naturalidade: Portuguesa
Idade: 38 anos
Formação académica: Mestrado em Sistemas de Informação Geográfica e Ordenamento do Território e Licenciatura em Geografia (especialização em Ordenamento do Território).na Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Ocupação Profissional: Trabalhadora independente. Atualmente colaboro com a Câmara Municipal de Santo Tirso, dando apoio técnico na área do ordenamento do território e sistemas de informação geográfica no âmbito da revisão do plano diretor municipal.
Outros: Membro Colaborador do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT)

 

1 - Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende
A escolha de apenas um livro é uma tarefa ingrata, já que foram vários os que me marcaram por diferentes razões. Mas recomendo A Jangada de Pedra de José Saramago, que nos conta a história insólita da separação física da Península Ibérica do restante continente europeu e das cinco personagens que viajaram pela península à deriva e sentem responsáveis pela separação física da península ibérica.  Este livro, escrito no ano em que Portugal e Espanha aderiram à União Europeia (a então CEE), é uma metáfora sobre o isolamento dos países ibéricos em relação ao centro político europeu e é sobretudo uma crítica do autor aos jogos de poder político. Ao lermos esta história percebemos que a separação física é uma alusão ao sentimento de periferia destes países e a deriva da jangada pelo oceano remete para as descobertas, que, aqui, simboliza a busca por uma identidade própria capaz de se afirmar no mundo. Existe também uma reflexão mais filosófica sobre a viagem interna das personagens em busca de um espaço para ser e pertencer e forma como se relacionaram e se aceitaram. Para mim, este livro é ainda hoje pertinente e acutilante. A Europa continua dividida, entre vários centros e várias periferias, e sem cumprir a visão inicial de Robert Schuman – uma Europa unida, próspera e solidária.  E, num mundo de incertezas marcado pela pandemia, os consensos na Europa são cada vez mais difíceis de alcançar e a visão de união e solidariedade é quase idílica. 

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?
Li algures que “quem semeia um pensamento, colhe um ato e quem semeia um ato, colhe um hábito.”  Na verdade, a forma como os meus professores me ensinaram geografia foi determinante na minha formação profissional e pessoal e tornou-a uma constante no meu dia-a-dia.  As minhas vivências são sempre vistas e experienciadas através da lente geográfica. A Geografia permite cruzar diferentes perspetivas, desde a visão mais panorâmica até a visão do detalhe. Mas também nos traz outras áreas de conhecimento, afinal é uma disciplina de charneira entre as ciências naturais e sociais. É esta visão tão versátil e dinâmica do mundo que me seduz na Geografia e que constitui uma mais valia a nível profissional.  

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?
Na minha experiência profissional tornou-se muitas vezes um lugar comum ser considerada engenheira ou arquiteta, ou classificarem a Geografia como uma área pouco relevante. Mas reconheço que nos últimos anos há um reconhecimento das competências dos geógrafos em particular na área dos sistemas de informação geográfica. Este reconhecimento, cada vez mais presente, depende sobretudo de nós, geógrafos. Da divulgação do nosso trabalho não só dentro da nossa comunidade científica, mas também em contextos mais abrangentes. Da nossa capacidade de levar o nosso conhecimento para a prática do planeamento e ordenamento do território.

4 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?
Para os futuros geógrafos, desejo-lhes muito sucesso nesta jornada académica que se inicia e aconselho a apostar na formação na área dos SIG. Vivemos na era do digital, em que as tecnologias de informação geográfica assumiram um papel crucial enquanto ferramenta de trabalho e de interface. A aplicabilidade dos SIG aos diferentes setores de atividade e às diversas áreas de negócio abre caminho a novas oportunidades de trabalho. Ao geógrafo diria que enfrentámos uma nova realidade imposta pela pandemia e que acarreta novas e acrescidas responsabilidades. Teremos de repensar o território e a forma como o vivenciamos para enfrentar a crise socioeconómica. Mas também é uma oportunidade de demonstrar o potencial e o valor da Geografia na compreensão dos fenómenos e no suporte à tomada de decisão.

5 - Queríamos pedir-lhe que escolha um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser de âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha, e comente-o, tendo em conta em particular a sua perspectiva e análise como geógrafo.
É inevitável referir a pandemia provocada pelo Covid-19, porque irá alterar o modo como nos relacionamos com o território e as suas consequências económicas e sociais deixarão marcas profundas. Na perspetiva de uma geógrafa, e citando João Ferrão, diria que é “importante divulgar informação regionalizada e apontar potenciais causas para os resultados diferenciados observados nas diversas regiões. Mas convém enquadrar estes resultados numa visão mais ampla, quer do ponto de vista conceptual, quer no que se refere ao conhecimento do território”. E aqui a Geografia desempenha um papel crucial. Pela sua abordagem multiescalar e multidimensional é capaz de dar uma perspetiva e uma reflexão mais abrangente, analisando a trajetória, os padrões de distribuição, as diferenças regionais e os seus fatores explicativos. Num mundo globalizado, com uma rede de fluxos cada vez mais intensa, é necessário repensar o território – o espaço digital, o espaço público, a proximidade casa-trabalho/escola…

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?
Se me permitem, sugiro dois locais. O Vale do Ave. O lugar onde nasci e cresci. É sem dúvida um território com uma imagem peculiar, onde no mesmo espaço se reúne a casa, a indústria e o “pedaço de terra” onde se cultiva. Com caraterísticas singulares marcadas pela história da indústria têxtil, em que coabitam elementos de urbanização, de ruralidade e de industrialização, que se conjugam e interpenetram, originando uma “paisagem retalhada”.  
O interior alentejano, que descobri recentemente numa viagem de autocaravana.  Um território com uma identidade muito própria, em que a história, a cultura e o património se conjugam na imensidão das planícies e na beleza da sua paisagem. A modificação da paisagem desta região com o empreendimento do Alqueva tem potencial pedagógico para as aulas de Geografia. Permite explorar as novas configurações do território, as dinâmicas económicas que emergiram e os novos espaços socialmente produzidos. Possibilita uma interessante discussão sobre as consequências dos usos e atividades advindas do Alqueva, sobre os impactos que pode ou não gerar na perspetiva ambiental, social, económica.