# 53 Mário Vale

Mário Vale - Diretor do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa | Outubro

Nome: Mário A. F. Vale
Naturalidade: Lisboa
Idade: 58
Formação académica: Doutor em Geografia Humana
Ocupação Profissional: Professor no Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa
Outros: Diretor do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa

 

1 - Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.
É muito difícil escolher apenas um livro que me marcou na minha formação de geógrafo. Teria de referir inúmeros, incluindo alguns de autores portugueses, como Jorge Gaspar, Teresa Barata Salgueiro e João Ferrão, cujas dissertações de doutoramento são verdadeiros marcos do pensamento geográfico em Portugal. Mas não sendo possível e atendendo à minha área de especialização, indico dois livros que marcam uma viragem em Geografia Económica na década de oitenta: “Spatial Divisions of Labour: Social Structures and the Geography of Production” da saudosa Doreen Massey – que certamente celebraria esfuziantemente o título de campeão do seu querido Liverpool na Premier League - e “Production, Work, Territory: The Geographical Anatomy of Industrial Capitalism” editado por Allen J. Scott e Michael Storper, dois destacados geógrafos da UCLA. São já hoje dois clássicos indispensáveis à formação em geografia económica crítica.

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?
Os fenómenos económicos, sociais, culturais e políticos expressam-se invariavelmente de forma diferenciada no espaço. Essa grelha de leitura centrada no espaço, em diversas escalas, é uma característica comum aos que partilham este ramo do conhecimento. Mas devemos ir mais longe e interrogarmo-nos sobre a própria formação (produção) do espaço e quem mais beneficia de determinada organização espacial. Ainda que seja uma complicação adicional para a análise das mudanças económicas e políticas, é igualmente importante perceber como as regiões e os lugares interferem nos próprios processos sociais, pois é claro que o espaço não é um mero recipiente ou contentor. Os fenómenos económicos, sociais, culturais e políticos expressam-se invariavelmente de forma diferenciada no espaço. Essa grelha de leitura centrada no espaço, em diversas escalas, é uma característica comum aos que partilham este ramo do conhecimento. Mas devemos ir mais longe e interrogarmo-nos sobre a própria formação (produção) do espaço e quem mais beneficia de determinada organização espacial. Ainda que seja uma complicação adicional para a análise das mudanças económicas e políticas, é igualmente importante perceber como as regiões e os lugares interferem nos próprios processos sociais, pois é claro que o espaço não é um mero recipiente ou contentor.

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?
Sim, sem dúvida. Na investigação e nas atividades de extensão universitária ou na consultoria e nos debates sobre políticas territoriais ou políticas setoriais com impacto territorial, a opinião dos geógrafos é, progressivamente, mais valorizada, como se pode verificar, por exemplo, através das duas edições do Programa Nacional de Políticas de Ordenamento do Território (PNPOT), com coordenação cientifica de colegas (Jorge Gaspar e Teresa Sá Marques, respetivamente). Mas nada de equívocos; há um longo caminho a percorrer em matéria de valorização social da geografia e dos/as geógrafos/as em Portugal. Bastará ver a presença nos media de outros grupos técnico-profissionais para perceber que devemos afirmar-nos e demonstrar com clareza a mais-valia da análise geográfica dos problemas atuais e futuros. 

4 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?
A geografia é uma área de estudo milenar e que continua a fornecer respostas para os grandes problemas societais globais (alterações climáticas, saúde e bem-estar, energia, sustentabilidade, inclusão e inovação, etc.). É uma disciplina muito rica e diversa, que estuda os aspetos ambientais e humanos da superfície terrestre e as suas interseções. Foi, e continua a ser, marcada por diversas abordagens ou perspetivas filosóficas, designadamente o historicismo, positivismo lógico e (pós) estruturalismo, e combina uma variedade notável de métodos e técnicas de trabalho (quantitativos, qualitativos, métodos mistos). Em resumo, é uma área de estudo que nos ajuda a analisar e intervir, ética e responsavelmente, no desenvolvimento dos territórios.

5 - Queríamos pedir-lhe que escolha um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser de âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha, e comente-o, tendo em conta em particular a sua perspetiva e análise como geógrafo.
É difícil não falar das implicações da COVID-19 na economia e sociedade numa perspetiva geográfica. As implicações são muito diversas e, do meu ponto de vista, os impactos territoriais da COVID-19 no presente refletem-se muito negativamente no crescimento e no emprego nas regiões mais dependentes do turismo, como no Algarve e na Madeira, e nas regiões em que a designada ‘gig economy’ tem uma presença significativa, como na Área Metropolitana de Lisboa e, em menor grau, na Área Metropolitana do Porto, nestes casos porque o trabalho à tarefa e temporário não tem tido o mesmo nível de apoio social durante a pandemia. É primordial repensar o futuro modelo de desenvolvimento económico, que deveria assentar na reindustrialização das regiões e, em territórios mais frágeis, no desenvolvimento da agricultura, com uma maior presença do Estado e das políticas públicas.

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?
Sugiro trabalho de campo entre o Terreiro do Paço e Alcântara, onde podemos ver as marcas da ascensão e queda das atividades industriais, portuárias e serviços conexos e a recente formação de espaços de consumo e lazer e de um hub criativo na cidade de Lisboa, num contexto de crescente internacionalização e financeirização do processo de desenvolvimento urbano. 

7 – O que significou para si exercer a presidência da APG?
Foi um período muito intenso e vibrante. Conseguimos reestruturar a APG e lançar as novas bases para o crescimento da associação, tendo tomado algumas decisões que reforçaram a capacidade de atuação da associação (designadamente a mudança definitiva para as instalações no ICS, a adoção de um novo modelo de financiamento dos congressos nacional e internacional, o crescimento da massa associativa, a renovação do site, o relançamento dos Colóquios Ibéricos, a edição da Inforgeo, entre muitas iniciativas). Mas nem todas as ações deram resultados e lamentamos não ter sido possível definir formalmente o papel dos profissionais no planeamento e gestão do território, apesar do nosso forte empenhamento no diálogo com o governo e com outras associações e ordens relevantes no processo. Em resumo, foi um privilégio e uma honra servir durante quatro anos a nossa comunidade, em conjunto com colegas dos órgãos e colaboradores da APG.