Rui Alves

Rui Alves, Diretor-Geral do Território é doutorado em Planeamento Regional e Urbano pelo Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa, mestre em Planeamento Regional e Urbano pelo Instituto Superior Técnico, e licenciado em Geografia e Planeamento Regional pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

1 - Comentário a um livro que a marcou ou cuja leitura recomende

Recomendo uma obra que li recentemente no último período de férias que tive, "A Civilização do Espetáculo" de Mario Vargas Llosa, Quetzal, 2012. Não é um livro fácil sobretudo para quem não estiver disponível para digerir um ensaio crítico de um inconformista sobre a sociedade contemporânea e o espaço que a cultura, a religião a consciência e a crítica nela ocupam, escrito numa linguagem pragmática despida de preocupações com o "politicamente correto" e marcada por sentimentos de nostalgia e melancolia.

Segundo o autor, nas últimas décadas, a cultura cedeu o seu lugar ao espetáculo em vários polos culturais. A distração e o divertimento, o sensacionalismo e a frivolidade instalaram-se definitivamente na sociedade. A curiosidade intelectual deu lugar ao superficial, ao óbvio, ao facilitismo e ao vendável. A figura do intelectual desapareceu do debate público.

Vargas Llosa está preocupado com a contemplação, a complacência, a passividade e o silêncio a que muitos se remeteram, que caracterizam a sociedade contemporânea, sintomas de um mal-estar, que a corroem e degeneram em geral.

Uma visão em certos pontos cruel e condenatória com a qual nem sempre concordei. Um livro que não me deixou indiferente que me fez pensar no que sou e no que posso fazer.

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?

Ser geógrafo teve e tem uma grande relevância naquilo que já fiz, no que atualmente faço e, espero, no que irei fazer. As minhas atividades profissionais principais têm-se desdobrado em cinco grandes áreas: Investigação, Docência; Consultoria, Administração Pública e Gestão, todas direta ou indiretamente relacionadas com o território e transportes/mobilidade. A geografia (o pensamento geográfico) deu-me o lastro indispensável para compreender melhor os processos territoriais, sejam eles urbanos ou rurais, e para desenvolver atividades no quadro daquelas áreas.

Tenho uma formação muito peculiar no quadro da matriz formativa da grande maioria dos geógrafos portugueses e certamente também uma experiência muito rica e diversificada em outras áreas do saber complementares e que alargam a banda de conhecimento que adquiri em geografia (topografia, transportes/mobilidade, engenharia de tráfego, gestão e sistemas de apoio à decisão, avaliação de projetos, direito, etc.).

Gosto muito de números e de matemática e de resolver problemas e coloco-me assumidamente no quadro da geografia ativa. Por isso, assim que terminei a licenciatura em Geografia e Planeamento Regional, decidi fazer toda a minha formação pós-graduada numa escola de engenharia, o Instituto Superior Técnico, que me proporcionou conhecimentos para olhar para as questões e para os problemas de maneira diferente e me forneceu outro tipo de ferramentas para os resolver.

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia?

De que forma e como se expressa esse reconhecimento? Nem sempre. Muitas das vezes acham que a minha formação de base é nas áreas da engenharia ou gestão. Quando digo que sou geógrafo (e com orgulho) então percebem o porquê do uso determinados termos e expressões tipicamente dos geógrafos. Numa grande parte dos casos acham que quero ser geógrafo. Gosto muito de enriquecer os meus conhecimentos em outras áreas do saber. Preocupo-me com a transdisciplinaridade.

4 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?

A sociedade do futuro conterá em simultâneo oportunidades, desafios e riscos para qualquer formação, embora muito diversificadas em função das formações e competências respetivas. Parece ser certo que seguindo as tendências, já amadurecidas, assentará na informação, no conhecimento e na tecnologia. Ora em qualquer delas o geógrafo poderá movimentar-se. Há muitos geógrafos que desempenharam ou desempenham funções e desenvolveram ou desenvolvem atividades que nos surpreendem. Jean Labasse, um ilustre geógrafo, desempenhou relevantes funções numa importante instituição bancária europeia (creio que o Credit Lyonnais)!

Já no campo das responsabilidades há uma forte componente que é pessoal e depende das características e da personalidade de cada um. A par da formação, conhecimento e competências terá que haver uma boa dose de autoestima, motivação, perseverança e gosto pelo trabalho. Realizar as tarefas e desempenhar as funções de forma competente, com o maior rigor e qualidade possíveis, terão que fazer parte de qualquer bom profissional.

O geógrafo tem que procurar demonstrar incessantemente que foi, é e será útil e necessário à sociedade. Tem o seu espaço de afirmação que por sinal é partilhado e muito concorrido por outros profissionais. Não podemos é deixar que os outros sejam geógrafos sem o ser.

5 - Queríamos pedir-lhe que escolha um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser de âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha, e comente-o, tendo em conta em particular a sua perspetiva e análise como geógrafo.

Os incêndios florestais em Portugal são um acontecimento/tema recorrente (por isso antigo, atual e, certamente, futuro). Encaixa perfeitamente na "Civilização do Espetáculo" de Mário Vargas Llosa sob diversos pontos de vista, que me abstenho de referir. Não haverá muito a acrescentar ao que já se conhece sobre as causas, as consequências (um ano mais gravosas outro menos) e as soluções (algumas delas muito criativas) para os incêndios através das imagens no quadro das reportagens e dos debates televisivos, e dos textos da mais diversa natureza que conhecemos (técnico-científicos, artigos de opinião, informação jornalística, etc.). Sempre houve e haverá incêndios florestais. É um problema antigo que entra e sai da agenda política a uma velocidade superior à dos próprios incêndios. Houve de facto alterações muito significativas no que se refere à sensibilidade social e política relativamente aos incêndios e ao nível de perigosidade que eles comportam (que são muitos diferentes do que se registavam há duas décadas atrás).

Sou proprietário de terrenos que em pouco maios de 20 anos já foram percorridos três vezes por incêndios! Não retiro qualquer rendimento daqueles terrenos. Não tenho qualquer estímulo ou subsídio para que neles possa haver atividade produtiva. Pago impostos sobre eles (IMI). Sempre que ardem não recebo qualquer indeminização. Qualquer ação de limpeza que desenvolvo sobre eles tem um custo mínimo de 300 euros/ha todos os 2 /3 anos. Trata-se de um passivo familiar do qual me quero ver livre. Posso vender a 10 cêntimos o m2. Mas não tenho interessados para comprar todos. Deveria poder renunciar à propriedade a favor do Estado. Por sua vez este também não faz nada sobre os seus terrenos, alguns bem próximos dos meus.

As soluções são muito complexas por envolverem diversos setores, agentes e políticas públicas a diversos níveis territoriais.

Não é possível evitar todos os incêndios, mas do lado da prevenção há muito para fazer que não tem sido feito. A dimensão e a gravidade do problema residem, em primeiro lugar, na organização e no ordenamento do território (evolução da distribuição da população e das atividades no território, em termos gerais e em termos concretos: localização das habitações e edificações nos espaços não urbanos que suportam atividades económicas que nada têm a ver com as necessidades da agricultura e silvicultura, da transformação de produtos com elas relacionados ou da exploração de outros recursos naturais), em segundo lugar, no ordenamento florestal e finalmente nas políticas públicas seja elas implícitas ou explícitas. Não vou dissertar sobre o assunto.

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?

Não é fácil, depende da perspetiva. Mais rural mais urbana; mais física mais humana... proponho uma vista pela Beira Interior porque é aí que tenho as minhas origens. Tem um pouco de tudo e poderá ser útil e satisfazer o visitante em diversas perspetivas: turismo, gastronomia, paisagem, geografia física e geografia humana, não tanto urbana porque as cidades são pequenas, mas à nossa escala são médias, mas dispõem de alguns projetos interessantes em termos de desenvolvimento urbano, arte e cultura, empresarial, atividades produtivas, entre outros. Uma visita ao Geopark Naturtejo, aldeias históricas, aldeias de xisto, minas da Panasqueira, entre muitos outros lugares e coisas para descobrir e que interessam aos geógrafos.