José Pelayo Silva

José Rui Pelayo da Silva

Licenciado em Geografia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, pós-graduado em Sistemas de Informação Geográfica pela mesma universidade e mestre em Deteção Remota pela University College London.

Iniciou a sua carreira profissional em consultoria de redes de transporte público (rodoviário e ferroviário) na Trenmo Engenharia. Desde 2013 trabalha na HERE, multinacional responsável por cartografia de apoio a sistemas de navegação e análises geográficas.

Apaixonado por história, fotografia, cinema e caminhadas ao ar livre.

1 - Comente um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.

Longitude de Dava Sobel. Lembro-me de devorar este pequeno grande livro na minha adolescência. De uma forma muito sucinta e simples, esta narrativa em torno da resolução do cálculo da longitude, contribuiu em muito para o meu gosto pela Geografia. O resultado desta, e outras influências, foi a minha candidatura à FLUP após a conclusão do secundário.

 

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia a dia, ser geógrafo?

Bastante relevância. Embora trabalhe numa empresa multinacional tecnológica, inserido em equipas multidisciplinares lado a lado com engenheiros, matemáticos e informáticos, a base de tudo é um mapa digital. Neste aspeto, a capacidade de leitura de informação geográfica, de representação da mesma, de entendimento de padrões espaciais mostra-se uma mais valia face a colegas de outras áreas do saber.

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento? 

Sim. Temos imensos geógrafos a trabalhar na minha empresa. Essencialmente, todos as funções onde a interação com informação geográfica (seja interna seja o processamento de informação externa) é realizada por geógrafos ou acompanhada por geógrafos.

A nossa capacidade de leitura espacial e resolução/previsão de problemas cartográficos associados é reconhecida como uma mais valia que um geógrafo traz.

4 - O que diria a um jovem à entrada de Universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as suas perspectivas na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspectivas, responsabilidades e oportunidades?

Diria que, infelizmente para muitos, já não podemos ver o geógrafo quase exclusivamente um professor de geografia ou um funcionário público numa autarquia ou instituição pública. Esse paradigma está esgotado e provavelmente nunca mais vais voltar.

Neste contexto, diria que é importante um equilíbrio na componente técnica (SIG e demais instrumentos tecnológicos essências no século XXI) com um sustento teórico importante. O geógrafo deve obviamente dominar os sistemas de informação geográfica, mas também devem dominar as técnicas de como representar a informação cartográfica que produz/manipula. Deve também treinar o seu espírito crítico na interpretação dessa mesma informação cartográfica.

Por último, deve tentar sempre complementar a sua formação geográfica com outras componentes associadas que lhe maximizem as perspetivas de empregabilidade (em áreas tão dispares como programação, gestão, turismo, comunicação…).

5 - Queríamos pedir-lhe a escolha de um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser do âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha e comente-o, tendo em conta a sua perspetiva e análise como geógrafo.

Não posso deixar de referir o problema dos incêndios em Portugal. O facto de sistematicamente termos um flagelo todos os anos, por mais investimentos na proteção civil e combate a incêndios, leva-me a acreditar que o ataque aos problemas estruturais que estão na sua origem não estão a ser devidamente acautelados desde que vivemos em democracia.

O problema do cadastro florestal e rústico, bem como a fuga das localidades interiores (para o litoral e estrangeiro), leva a um contexto de abandono populacional e baixas perspetivas económicas para os (ainda) residentes que reforçam os fatores de risco aos incêndios. Temos territórios sub-aproveitados economicamente, reféns da monocultura do eucalipto e pinheiro, sem algum tipo de ordenamento, desprovidas de serviços públicos essenciais e, como tal, povoadas por uma população pobre e envelhecida. Tudo isto contribui para que, verão após verão, tenhamos que travar uma verdadeira guerra contra o fogo.

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?

Gerês. Sou um apaixonado por aquela área e permite a abordagem de temas tão vastos como a geomorfologia e geologia, como também a sua interligação com os modos de vida tradicionais que moldaram a paisagem durante séculos. Por último, conseguimos também ver o abandono recente das populações locais (para o litoral e estrangeiro), bem como as novas lógicas de eco-turismo tão na moda ultimamente).