Jorge Arroteia

Jorge Carvalho Arroteia (1947) – Licenciado em Geografia (Universidade de Lisboa), Doutor e Agregado em Ciências Sociais pela Universidade de Aveiro onde exerceu funções docentes. É autor de diversos estudos nas áreas de: Emigração Portuguesa; Análise Social e Administração da Educação; Geografia de Portugal.

Para além da docência e da investigação, integrou órgãos científicos de estabelecimentos de ensino superior politécnico e de avaliação deste subsistema de ensino. Desempenhou funções de Direcção em serviços centrais do Ministério da Educação e do Ministério da Ciência e do Ensino Superior. Professor Catedrático da Universidade de Aveiro – Grupo 2: Educação, aposentado em 31OUT2008. Consultor nas áreas de Educação & Desenvolvimento.

1 - Comente um livro que o marcou ou cuja leitura recomende

“Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”, do Professor Orlando Ribeiro. Este livro fez parte das leituras obrigatórias das disciplinas de Geografia Humana e de Geografia de Portugal (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa: 1967-1972) e continua a acompanhar-nos em algumas reflexões sobre a terra e a população portuguesa.

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia a dia, ser geógrafo?

A formação inicial em Geografia tem sido determinante, especialmente em três momentos distintos da nossa vida profissional.

  1. Num primeiro momento, quando concluímos a Licenciatura (1972), garantindo a inserção imediata no mercado de emprego e apesar do cumprimento do serviço militar obrigatório (entre 1972 e 1975), assegurando uma actividade profissional polivalente, ligada ao ensino e à administração pública, até ao final da década de oitenta;
  2. Um segundo momento, marcado pela admissão na Universidade de Aveiro e integração noutra área científica: Ciências da Educação. Não obstante este compromisso, procurámos aprofundar a relação entre da Geografia com outras Ciências Sociais, nomeadamente a Demografia e a Sociologia. Nesta fase tivemos possibilidade em trabalhar em novos domínios científicos que faziam parte da formação teórica do Geógrafo noutros países, como em França ou no Reino Unido e que gradualmente foram sendo incorporados na formação inicial dos alunos de Geografia;

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento? 

No decurso da nossa vida profissional e não obstante o registo de um período alargado em que abdicamos do exercício de geógrafo, a formação inicial em Geografia deixou marcas no exercício da nossa actividade. Primeiramente pelo perfil alargado de matérias e áreas científicas distintas que fizeram parte do currículo académico e a iniciação à investigação conducente à elaboração da Dissertação de Licenciatura, constituíram uma mais valia no mercado de trabalho. Já no exercício da actividade profissional, a “marca” da Escola de Geografia de Lisboa, baseado no rigor científico, no exemplo de “boas práticas” pedagógicas e científicas, na afirmação crítica, no espírito de síntese e na convivência humana e democrática que assinalou a formação académica na Universidade de Lisboa, foram evidências que nos honraram mas que deixaram marcas de alguma incompreensão junto de alguns “actores sociais” que nos cercaram.

4 - O que diria a um jovem à entrada de Universidade a propósito da formação universitária e Geografia, sobre as perspectivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspectivas, responsabilidades e oportunidades?

Os temas que prendem a nossa atenção no mundo contemporâneo na sua relação espaço-tempo, o meio físico, a marcha e o futuro da humanidade, são assuntos de eleição para um aluno que pretenda fazer a sua iniciação no estudo da Geografia. Por sua vez o aprofundamento do pensamento geográfico na sua relação com a herança científica que assinala o nosso “processo civilizatório” - alicerçado no método científico em que assenta a Geografia – permite uma vasta compreensão dos fenómenos físicos e humanos, sociais e culturais tratados nos planos curriculares desta graduação.

Para isso importa que os Mestres de hoje saibam aliar à sua formação académica, a reflexão partilhada da investigação científica - de carácter multidimensional e internacional - que permita ao geógrafo afirmar-se como membro estruturante do systems thinking universitário.

5 - Queríamos pedir-lhe a escolha de um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser do âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha e comente-o tendo em conta em particular a sua perspetiva e análise como geógrafo.

Ainda como aluno da Licenciatura em Geografia, durante os anos sessenta, fomos tocados pelo tema da mobilidade (emigração) da população portuguesa, assunto que tendo embora merecido a atenção de alguns Mestres da Escola de Lisboa, foi inicialmente explorado no âmbito de outras Ciências Sociais como a Sociologia, Demografia, Economia e Antropologia. Com satisfação e a exemplo do que se registou noutros países europeus, o alargamento da comunidade científica e o aprofundamento da investigação especializada no âmbito das Geografia Humana e dos temas que lhe são próximos, vieram a valorizar a análise dos fenómenos de mobilidade humana nas suas vertentes, geográfica e social. Tal remete-nos para diferentes leituras do espaço e do tempo; das civilizações e dos processos neocoloniais; do determinismo e das questões geo-estratégicas presentes nas migrações europeias e internacionais.

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?

O desenvolvimento de alguns trabalhos relacionados com a população e a geografia de Portugal, em particular na área do Pinhal Litoral e da bacia hidrográfica do rio Lis, permitem uma sugestão centrada nos “ciclos geográficos e paisagem do rio Lis”. Sugerimos os temas seguintes:

- Enquadramento geográfico da bacia do Lis

- Ciclo geográfico curso principal e seus reflexos

- A regularização do leito em meio urbano

- Os trabalhos de regularização do leito nos campos marginais e na foz

- Aproveitamento hidroagrícola

- Questões geográficas relacionadas com o povoamento e o ambiente humano.

- Complementarmente: O marco geodésico de Monte Redondo e as Salinas da Junqueira.

Os tópicos desta visita abarcam diferentes assuntos de natureza física, humana, económica, social e política, que podem ser levantados em ciclos sucessivos da vida deste curso de água. Tal dá oportunidade de se revisitar o Carso dos Candeeiros, a morfologia urbana da cidade de Leira, os fenómenos geológicos relacionados com a evolução do troço deste rio após a sua confluência com o Lena (Diapirismo), o domínio régio (Casa do Infantado) e o esforço humana no aproveitamento dos campos do Lis, os investimentos hidroagrícolas do Estado Novo, as obras de hidráulica e as dinâmicas litorais. Se possível acompanhados com um néctar das Cortes, de umas brisas do Lis e de uns versos do Rodrigues Lobo ou de uma prece à Senhora da Gaiola…

Jorge Carvalho Arroteia

(Dia Internacional da Terra)