Fernanda do Carmo

Fernanda do Carmo

Nasceu em Lisboa em 1964.

Licenciada em Geografia e Planeamento Regional, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em 1987; Pós-Graduada em Ordenamento do Território e Planeamento Ambiental, pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, em 1993; Mestre em Administração Pública, pelo ISCTE - IUL – Instituto Universitário de Lisboa, em 2013; Diplomada em Estudos Avançados em Políticas Públicas, no âmbito do Curso de Doutoramento em Políticas Públicas, pelo ISCTE - IUL – Instituto Universitário de Lisboa, em 2015.

Exerce a profissão de geógrafa na administração pública, na área do ordenamento do território e do planeamento regional. Iniciou a atividade profissional na Direção Geral do Ordenamento do Território e transitou depois para a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo, onde coordenou os trabalhos de elaboração dos Planos Regionais de Ordenamento do Território da Área Metropolitana de Lisboa e do Oeste e Vale do Tejo e onde exerceu o cargo de vice-presidente entre 2005 e 2008. Foi Secretária de Estado do Ordenamento do Território e cidades entre 2009 e 2011 e exerce, desde o inicio de 2017, o cargo de Diretora-Geral do Território.

No percurso profissional colaborou com diversas entidades públicas e gabinetes ministeriais e exerceu cargos de direção no conselho de administração da Sociedade Frente Tejo - Reabilitação Urbana da Frente Ribeirinha de Lisboa, no Instituto Geográfico Português e no Órgão de Acompanhamento das Dinâmicas Regionais de Lisboa. Durante 2016 integrou a direção da Associação Portuguesa de Geógrafos.

1 - Comentário a um livro que a marcou ou cuja leitura recomende

São muitos e diversos os livros que me marcaram ao longo da vida, sobretudo no universo da literatura de romance e ficção e da literatura técnica e científica, opto por escolher dois livros destes universos que considero de recomendar enquanto geógrafa.

No universo da literatura de romance identifico “O Rastro do Jaguar”, de Murilo Carvalho, um livro de um escritor, jornalista e argumentista brasileiro que escreve a propósito da guerra ocorrida entre o Brasil, a Argentina e o Paraguai, na segunda metade do século XIX, pelo controlo do território da bacia do rio da Prata, um romance cujo conteúdo ultrapassa em muito o âmbito estrito do conflito que lhe dá o mote e da região onde este se desenvolve. Li este livro pela primeira vez em 2009, quando foi publicado em Portugal, e reli-o muito recentemente, em férias, durante uma viajem pelo interior do Brasil. Escolho-o porque para além de o considerar um excelente texto literário, cuja escrita e enredo cativa o leitor, considero-o um bom romance geográfico que nos dá uma perspetiva histórica e geográfica e nos permite refletir sobre questões sociais e culturais marcantes da identidade e percursos dos países europeus e sul-americanos envolvidos no conflito.

No universo dos livros técnicos e científicos identifico “O Ordenamento do Território como Política Pública” do geógrafo e investigador João Ferrão, publicado em 2011, que nos trouxe um contributo muito relevante para melhorar o conhecimento sobre o ordenamento do território enquanto política pública e para identificar as questões chave da eficiência e qualidade desta política, conjugando perspetivas teóricas e práticas. Li o livro na sua globalidade quando foi publicado e recorro frequentemente a novas leituras e consultas no âmbito da minha atividade profissional e de estudo. Sublinho o interesse do livro para a comunidade profissional que trabalha na área do ordenamento do território, pela forma sintética, clara e acessível como são apresentados os contextos políticos e institucionais determinantes desta política, argumentados os desafios do ordenamento do território na sua relação com as demais politicas públicas e enunciadas as fragilidades dos valores e das culturas de território e de ordenamento do território.

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?

Para mim a opção por uma formação académica em geografia foi circunstancial e inesperada resultando a escolha do curso de geografia e planeamento regional de uma empatia imediata com um conjunto de aspetos que o curso (recentemente criado) fomentava, sobretudo, a novidade do currículo, a integração de diversas áreas do conhecimento na perspetiva das ciências sociais, a abordagem dirigida ao ordenamento e planeamento do território, a relação estreita entre a aprendizagem teórica e trabalhos de campo e de aplicação prática.

A formação em geografia permitiu-me desenvolver competências ao nível da observação do território, da leitura das estruturas físicas e das marcas da paisagem, dos padrões de uso e ocupação do solo e da organização das atividades humanas no espaço, da explicação das relações entre as dimensões físicas, sociais, económicas e culturais e das funcionalidades de cada território e deu-me bases para explorar cenarizações do futuro no âmbito do planeamento estratégico e da ação propositiva que lhe é subjacente. A formação posterior e a aprendizagem decorrente do exercício da profissão ensinaram-me a compreender melhor o papel dos contextos sociais, temporais e institucionais e a identificar ciclos políticos e atores decisivos na transformação do território observado e no sucesso da concretização do planeado.

Tendo concretizado as expetativas depositadas na formação académica e tendo podido exercer uma profissão que escolhi e gosto e que me permitiu sempre aprofundar e desenvolver as minhas competências, seja por estudo próprio, seja, em grande parte, por via do trabalho conjunto com profissionais de diversas áreas de formação importantes para a abordagem geográfica, o ser geógrafa tem toda a relevância no meu dia a dia, não só na vida profissional mas na vida em geral.

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?

Tendo como referência o exercício da profissão de geógrafa na administração pública e o ordenamento do território como campo de trabalho, julgo que existe um reconhecimento profissional dos geógrafos segmentado, ligado a certos domínios de especialização e a determinados campos de trabalho ou associado ao nome de geógrafos com grande protagonismo, não se aplicando esse reconhecimento à classe profissional no seu todo.

Considero exemplo de uma especialização bem reconhecida a área dos sistemas de informação geográfica que alia a produção de informação espacial com novas tecnologias, em que os geógrafos souberam aproveitar os recursos tecnológicos, explorar a sua utilização e inovar com base nos conhecimentos e competências dadas pela geografia, fazendo com isso a diferença face a profissionais de outras formações.

No campo do planeamento territorial, quer no setor público quer no setor privado, os geógrafos vêm o seu trabalho reconhecido, seja nas dimensões estratégicas e programáticas, seja nas dimensões biofísicas e urbanísticas. Embora este seja um campo de ação de profissionais de diversas formações em que a geografia é apenas uma, existem competências dos geógrafos essenciais aos exercícios de planeamento que lhes são reconhecidas e requeridas: a capacidade de sintetizar conhecimentos e análises de formações diversas no seio de abordagens multidisciplinares; a capacidade de pensar a várias escalas, conjugando os diferentes objetivos de cada uma delas; as análises espaciais e os mapeamentos de síntese, entre outas.

Estes e outros exemplos de reconhecimento específico não são, só por si, suficientes para que a geografia seja tão reconhecida como outras formações em que a convergência de interesses de classe e a organização corporativa se afirmaram, existindo um desequilíbrio entre o contributo dos geógrafos para a sociedade e o seu reconhecimento. O valor social da geografia está aquém do seu contributo.

4 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?

Para inicio de conversa diria que a formação académica nem sempre é o corolário de uma vocação bem definida, não obstante, as apetências, afinidades, e gostos são importantes para a escolha de cada um, uma vez que identificação pessoal com a área de formação e com a futura atividade profissional é fundamental para que o trabalho seja uma dimensão aprazível da vida.

Diria depois: que a formação em geografia contribui para a formação humana pela capacidade que nos dá de perceção e compreensão dos territórios e das realidades socioeconómicas; que a formação em geografia é abrangente e transversal, abrindo horizontes de pensamento e dando bases para um leque alargado de atividades profissionais; que não obstante a sua abrangência, a geografia oferece campos de especialização bem definidos; que a geografia nos ensina e orienta para posturas concetuais e metodológicas e para valores e formas de trabalho próprias do geógrafo que são mais-valias em muitas áreas de trabalho.

Acrescentaria que ser geógrafo implica ter capacidade de trabalho em equipa e de relacionamento, de compreensão de visões diferentes e de argumentação, ter abertura de raciocínio e ter princípios e valores.

Quanto ao papel do geógrafo na sociedade do futuro diria que os tradicionais temas de estudo da geografia, onde se concentram saberes e experiências, mantêm-se no centro das preocupações da sociedade, embora com contornos e exigências diferentes. A organização das atividades humanas no território, o desenvolvimento socioeconómico, os desequilíbrios demográficos, as funcionalidades e fluxos, as aptidões e a adaptação territorial, os perigos e vulnerabilidades, a preservação dos recursos naturais, a qualidade ambiental e a sustentabilidade são temas que continuam a dar oportunidades aos geógrafos de contribuírem para a sociedade do futuro e que lhes trazem responsabilidades acrescidas de inovação do conhecimento, das metodologias e das práticas para que esse contributo seja socialmente o mais relevante possível.

Acrescentaria que os desafios do futuro apelam a uma maior atenção das políticas e pelos territórios, a uma melhor consideração da diversidade territorial enquanto capital de inovação e potencial de transformação e a uma permanente conjugação entre visões globais e atuações locais. Para todos estes desafios os geógrafos possuem bases que lhes permitem contribuir com relevância.

5 - Queríamos pedir-lhe que escolha um acontecimento recente, ou um tema atual,  podendo ambos ser de âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha, e comente-o, tendo em conta em particular a sua perspetiva e análise como geógrafo.

Estando a responder a esta entrevista no final de agosto de 2017 não posso deixar de mencionar dois acontecimentos recentes, de natureza diferente, ambos com repercussões territoriais.

No plano internacional, o terrorismo e os ataques no coração de territórios familiares e considerados bem organizados, aprazíveis e seguros. Esta série de acontecimentos mostra que alguns adquiridos sobre a organização e funcionamento dos territórios podem ser questionados, quer nas escalas macro da circulação geral de pessoas e bens, quer nas escalas micro do desenho urbano e da configuração dos espaços públicos e coletivos, e obriga-nos a pensar em soluções de planeamento e gestão que conciliem a segurança com a manutenção da liberdade.

No plano nacional, os incêndios rurais que marcaram este verão pela dimensão trágica das mortes ocorridas, pela duração e persistência do período de incêndios, pelas consequências ecológicas e socioeconómicas nos vastos territórios queimados. Não sendo as ocorrências de incêndios novas, verifica-se que existe atualmente uma maior consciência social da complexidade que se coloca à alteração do quadro situacional dos territórios de risco e do tempo necessário para que esta se opere, uma maior consciência da tendência de agravamento das vulnerabilidades existentes associadas às mudanças climática e demográfica e uma maior consciência da necessidade de atuar sobre as causas dos problemas, com fortes apelos ao (re)ordenamento do território. A situação é de enorme complexidade e a existência de uma consciência social bem esclarecida é fundamental para a concretização das intervenções necessárias, pois está em causa repensar, com realismo, o modelo de organização e funcionamento territorial e atuar, necessariamente, com grande impulso de politicas públicas articuladas e com forte intrusão nos modos de vida e nas opções individuais dos cidadãos. Julgo que a mudança nestes territórios desafia os geógrafos e vários outros profissionais a contribuírem para as respostas que a sociedade pede.

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?

Em Portugal muitos territórios podem justificar uma saída de campo por serem bons ou maus exemplos face aos cânones. Seja porque confirmam ou contrariam princípios de organização que consideramos corretos ou sinónimos de qualidade da paisagem, seja porque saindo de uma destas condições apresentam transformação visível.

Mas não querendo deixar de concretizar, recomendo a sub-região Oeste (Região de Lisboa e Vale do Tejo) como um território bom para observar, compreender, explicar e pensar. Este território apresenta-se como uma unidade de paisagem individualizada, marcada por uma grande diversidade interna e uma particular beleza cénica. É um território complexo e dinâmico, vivo, rico e em desenvolvimento, com muitos elementos de harmonia e com intrusões que nos permitem questionar e confrontar opções.

Neste território, entre muitos outros aspetos, podemos observar a harmonia de determinadas áreas onde é visível a boa convivência entre a floresta, muitas vezes a mata de eucalipto, implantada nos cabeços e encostas altas, a agricultura de sequeiro e a vinha na média encosta, os pomares, as vinhas e as hortícolas nas várzeas e áreas aplanadas em confronto com intrusões de eucalipto plantado entre terrenos agrícolas de várzea; podemos observar as influências da pressão periurbana e da especulação urbanística em confronto com a pujante recuperação das atividades agrícolas e o renascer de um território rural bem explorado e aproveitado que concilia áreas de conservação e produção competitiva; podemos observar os resultados da ocupação desordenada do litoral e os efeitos transformadores positivos das ações de requalificação ambiental e urbana; podemos observar o desperdício de solo e infraestruturas resultante da edificação dispersa casuística em confronto com a organização de um povoamento de pequenos lugares, concentrados e lineares, que preservam o solo de maior aptidão agrícola; podemos observar como as diferentes opções e decisões de localização de equipamentos coletivos ou comerciais pode fazer a diferença na funcionamento das centralidades urbanas e da qualidade de vida dos seus habitantes.