Célia Ramos

CÉLIA RAMOS
30/06//2016 

Célia Ramos Secretária de Estado do Ordenamento do Território e da Conservação da Natureza
Célia Ramos nasceu no Porto em 1960.

Licenciada em Geografia e Planeamento Regional, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa. Pós-graduada em Instrumentos e Técnicas de Apoio ao Desenvolvimento Rural, pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Exerceu funções de Chefe de Divisão de Ordenamento do Território, entre 2001 e 2006, e de Diretora de Serviços de Ordenamento do Território, de 2006 a 2012. Foi ainda Chefe de Projeto da Estrutura de Missão para a Região Demarcada do Douro entre 2012 e 2014. Pertence ao quadro técnico da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDRN) desde outubro de 1984. É autora de vários trabalhos publicados e de comunicações sobre os temas do ordenamento do território, da valorização dos recursos do território e de proteção e promoção de áreas classificadas.

- Comentário a um livro que a marcou ou cuja leitura recomende

A obra de Yves Lacoste "A Geografia serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra", por exemplo.

Uma obra controversa à época que, pelo antagonismo afirma a importância estratégica da geografia, de pensar o espaço, de pensar o território, de melhor compreender o mundo, para transformá-lo.

A pergunta central que está presente em todos os capítulos desta obra de Yves Lacoste e orienta a substância dos seus conteúdos é: para que serve a geografia? Ou, qual é a sua função social?

E hoje em dia a abordagem territorial está no foco da ação política, mas também da científica e da técnica. O que quer dizer que a análise geográfica ocupa um lugar de destaque (razão tinha o autor) e é preciso demonstra-lo e afirma-lo.

Os fenómenos demográficos, a progressiva urbanização, a melhoria das acessibilidades, as redes, a rapidez das comunicações intensificada pelo progresso da tecnologia, obrigada sistematicamente a repensar os modelos de organização social, económica e urbana, de modo a desagravar e prevenir os problemas da intensidade e carga dos usos instalados, de equacionar a sua capacidade competitiva, mas sobretudo do modo de "planear e gerir a Cidade e o Território", na plenitude do seu significado.

Suprir carências infraestruturais e ambientais, foi o grande objetivo do investimento que tem marcado as últimas décadas, não só nas cidades, como no meio rural.

A sustentabilidade é hoje uma preocupação fundamental, na medida em que, subjacente ao conceito, está uma estratégia de intervir no presente sem comprometer o futuro.

A dimensão cultural é também, e cada vez mais, uma componente incontornável equiparada à da segurança e paz social.

As redes do conhecimento e as parcerias de partilha de experiências, por outro lado, consubstanciam estratégias colaborativas de sustentabilidade integradas, melhorando e aprofundando as políticas de governança e de governabilidade.

Assim, a territorialização das políticas públicas remete-nos, no presente, para a estruturação do território, onde as cidades emergem como alvos, mas com centralidades também definidas em função de recursos, de valores, dos espaços de fronteira, de funções do sistema tecnológico altamente especializadas.

As cidades e os territórios de hoje, enquadradas no contexto mundial, europeu, nacional, regional e local, exigem pois uma dimensão inteligente, inclusiva e sustentável, só atingida quando fruto de uma abordagem multidisciplinar, multi-organizacional e multiescalar.

São várias as preocupações e paradigmas que transversalmente incidem sobre o "Território" as suas funções e recursos, as suas vivências, a complexidade da sua gestão.

Compreende-se agora, mais do que nunca, que a abordagem territorial, é a base de suporte dos processos de desenvolvimento e de melhoria da qualidade de vida das pessoas – objeto primeiro da ação governativa, da ação política. Afinal um princípio doutrinário bem atual...

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?

Os geógrafos são muito pouco corporativos e devíamos ser mais unidos e ter o sentido da "classe" e portanto, "sítios" como este, são sempre de enaltecer. Por isso, felicito vivamente esta iniciativa e louvo os seus organizadores.

Sou do primeiro curso de Geografia e Planeamento Regional da Universidade Nova de Lisboa e tenho grande orgulho nisso. Tudo começou em 1980. Foi uma primeira experiencia da Nova Academia que deu frutos e inspirou mudanças no ensino da Geografia.

Aprendemos uma geografia mais humanista, mais virada para a ação, para as solicitações da sociedade da atualidade contribuindo para melhor a interpretar e equacionar os seus problemas e assim propor soluções mais adequadas para o território, no conjunto das suas funções – social, económica, ambiental, cultural.

Ao falar sobre a intervenção política dos "Geógrafos", não posso deixar de referir todos aqueles, que já exerceram cargos governativos, nomeadamente o Professor João Ferrão e a Dr. Fernanda do Carmo que ocuparam, diria que a mesma pasta, a do Ordenamento do Território e Conservação da Natureza.

Mas a intervenção política não se circunscreve à governação. Está patente, também e cada vez mais, no associativismo, na intervenção cívica, organizada ou individual, e aí os exemplos multiplicam-se.

Não deixo de enfatizar a importância da universidade ou antes, da "escola" para a o nosso dia-a-dia, assim como da influência que os professores exercem sobre os alunos e de fazer aqui menção aos que mais me marcaram:

A Professora Paula Bordalo Lema: A clareza do seu pensamento e da sua interpretação. A Professora que mais me marcou.... Eu seguia a sua exposição e apreendia de uma forma absolutamente natural. Tinha uma apetência inata para a compreensão do seu discurso, quase que intuitiva. A Professora Paula Bordalo Lema era tão, tão ....Geografia Crítica. Mesmo quase Radical.

A Professora Raquel Soeiro de Brito: Professora jubilada da Nova e então Diretora do Departamento. Recordo a sua vivacidade e o seu desafio permanente. Uma certa excentricidade cativante. Uma arrogância de algum modo construtiva.

O Professor António Barreto: O vigor do discurso, associado ao conhecimento vivido da sociologia rural. O calor que colocava ao falar sobre as revoluções e as reformas... A forma como nos cativava a atenção.

A Professora Margarida Pereira: Mais próxima de nós - também mais nova – com o seu pragmatismo contagiante, o seu discurso franco e aberto, o incentivo constante, o despertar da curiosidade para as matérias da atualidade.

A Professora Ana Firmino: na altura nossa assistente, uma companheira e uma aliada sempre disponível para mais uma dica ou correção.

Mas a integração da licenciatura na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas não é só simbólica, tem um significado percursor. Foi uma inovação relativamente às Letras, onde a Geografia era, na altura, tão tradicionalmente estável e neutra... - agora é diferente mas na época foi um verdadeiro arrojo encabeçado pela Professora Raquel Soeiro de Brito.

A licenciatura em Geografia e Planeamento Regional tinha uma dimensão mais tradicional, com as "geografias" (Física, Humana, Rural, Regional, Económica e Social, Urbana, de Portugal) e a história (mas até aqui se falava na Nova Geografia, na Nova História, mais das mentalidades e menos dos factos históricos). E ao mesmo tempo tinha uma dimensão inovadora, robusta com a economia (a micro, a macro e a de Portugal), a estatística, o planeamento, os transportes, o urbanismo, a ecologia, a antropologia, a sociologia rural e a sociologia urbana.

A Geografia da Nova tinha uma acentuada componente prática, que acompanhava a par e passo a componente teórica das aulas.

Uma nota para a forma como aprendemos a pensar do particular para o geral e depois tornar a particularizar.

Os estudos de caso e as generalizações. A dialética própria do conhecimento, ou antes do apuramento sucessivo do conhecimento.

Aprendemos na análise geográfica como a interpretação dos fenómenos, nos remetia para a dúvida e logo para o questionamento e a procura dos pontos críticos da análise.

Já em ambiente de trabalho muitas vezes questionava para serve a geografia? O que faz o geógrafo? Tal era a dispersão de assuntos que era chamada a tratar.

Um geografo e um Geografo da Nova é um generalista, tal como os médicos de medicina interna – tem que saber de todas as especialidades e fazer uma síntese, um diagnóstico assertivo para melhor prognosticar e propor.

Este método formativo conduziu ao desenvolvimento de determinadas competências, mas também de comportamentos – a curiosidade, (olho vivo e pé ligeiro como dizia a Professora Raquel), o questionamento, a problematização, a procura de novos modelos, técnicas e práticas.

Mas a "Geografia da Nova", transfigurou a minha perceção relativamente à Geografia que conhecia do secundário e do propedêutico....

A Geografia da Nova era diferente!

Ao longo dos anos da licenciatura, sedimentava-se como que uma rutura ou uma reconstrução do saber geográfico, relativamente às bases que havia tido.

Realmente e para mim, os traços mais marcantes da "Geografia da Nova" eram o posicionamento crítico e, de alguma forma, o alinhamento doutrinário.

O posicionamento crítico entendido como uma leitura crítica da realidade -- isto é, do espaço geográfico – sem omitir as suas tensões e contradições. Uma leitura que ajudasse a esclarecer a espacialidade das relações de poder e de supremacia, e são tantas no nosso território...

O alinhamento doutrinário na medida em que, não se pensava numa geografia "neutra", estática, do saber pelo saber, mas sim numa geografia pró-ativa, comprometida com a justiça social, com a correção das desigualdades socioeconómicas e das disparidades regionais, e até mesmo as ambientais na medida em que, em grande parte, elas também são sociais.

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua actividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?

Dito de outra forma, que capacidades distinguem os Geógrafos individualmente ou em equipa? Que competências distintivas nos afirmam?

A Abordagem multiconcetual – o conhecimento que temos dos conceitos, da epistemologia e método das várias áreas do saber.

A Abordagem multiescalar – a facilidade com que lidamos com as escalas de trabalho e respetivo nível de diagnóstico e proposta. Desde o quarteirão ao espaço europeu, passando pelo país e as pelas regiões.

A Abordagem multifuncional do território – Como interpretamos e compreendemos as variáveis em jogo nos territórios, que forma equilibrada, sem privilegiar a ou b, em detrimento de c.

A visão integrada. Difícil de equacionar e de derivar...mas que está no cerne da análise e síntese geográfica, ou seja, da nossa ação.

4 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspectivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?

Faria duas perguntas:

Tem vocação para alguma área especial do saber?

Conhece verdadeiramente a amplitude dos temas da Geografia?

Explicava que ser Geógrafo exige uma formação ampla e crítica, lidando com uma grande variedade de temas, que vão da sociologia e da economia à paisagem e ao ambiente. Trabalha a macro e micro escalas. Analisa, descreve, interpreta e resolve, ou propõe.

Ser geógrafo implica uma atualização sistemática do conhecimento, com inovação, mas também com pró-atividade e com o compromisso da justiça social e do exercício da cidadania, com a correção das desigualdades socioeconómicas e das disparidades regionais, com o ambiente e com a cultura, e estabelecendo uma proposta pluralista e aberta, dialogante com as diversas correntes e paradigmas.

5 - Queríamos pedir-lhe que escolha um acontecimento recente, ou um tema actual, podendo ambos ser de âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha, e comente-o, tendo em conta em particular a sua perspectiva e análise como geógrafo.

Não resisto em falar nos fenómenos demográficos que afetam a Europa e o Mundo.

Sendo as migrações um tema, também, da Geografia quase sempre com contornos extremos, drásticos ou mesmo dramáticos a escala global em que estão a acontecer e a imprevisibilidade das suas repercussões seria uma temática que muito gostaria de explorar. Claramente o tema de geopolítica mais pertinente da atualidade.

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?

Propunha o Douro Vinhateiro. Parcela do território distintiva na análise geográfica de muitos dos nossos "mestres".

Ao nível da "micro escala" – um Território com um matriz de ocupação do solo de monocultura da vinha, construída à custa do trabalho do Homem de luta contra a escassez de água e solo, em que a mecanização só começa a chegar nos anos 80 juntamente com o reforço do saber na área da viticultura e da enologia, com a criação da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Anos de expansão económica e social, esta principalmente devida à melhoria das condições de trabalho. Propriedade agrícola de dimensão média com parcelas dispersas em que o destino da produção era essencialmente a exportação. Um povoamento concentrado marcado pela presença de "Quintas" e respetivos apoios agrícolas.

A um nível da "meso escala" o Douro fará parte de um triângulo virtuoso a que se acresce Vila Nova de Gaia e Porto com características funcionais distintas: Douro – Produção; Vila Nova de Gaia – Armazenamento; Porto – Exportação. Esta circunstância gerou e ainda induz funções múltiplas, dinâmicas variadas e relações espaciais com vários temas para análise geográfica.

Trata-se da região regulamentada mais antiga do mundo em que, na atualidade, as formas tradicionais de trabalho da vinha e do vinho convivem com os métodos e técnicas mais avançadas e inovadoras, em que ao vinho do Porto se juntam vinhos de mesa de excelente qualidade e o enoturismo. Uma região em que para além do comboio e de uma rede já bem estruturada de estradas beneficia, ainda, da única via navegável do pais e em que a arquitetura vernacular e a das quintas mais tradicionais coabita com exemplos notáveis da arquitetura moderna, aliás com vários prémios atribuídos.

Uma região que, ainda assim, perde sistematicamente população e apresenta os índices de poder de compra mais baixos do pais, o que denuncia bem que o valor gerado não fica na região o que quase que equivale a dizer que quem "manda" no Douro não está no Douro.

Vamos fazer análise Geográfica? Por que lado começamos?