#47 Rui Mendes

Rui Mendes | Abril 2020 

Nome: Rui Paes Mendes
Naturalidade: Portuguesa, nascido em Moçambique
Idade: 48
Formação académica: Doutor em Geografia Humana, Licenciado em Geografia, Licenciado em Relações Internacionais
Ocupação Profissional: (Transitoriamente) Adjunto do Presidente da Câmara Municipal de Baião // Professor do Ensino Básico e Secundário
Outros: Investigador do CEGOT // Auditor de Defesa Nacional

 

1 - Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.
Uma tarefa complicada para início de conversa! Não tenho um livro que me tenha marcado. Tenho vários, consoante as idades e os interesses que o nosso crescimento naturalmente nos vai permitindo. Permitam-me, por isso, alguma amplitude na resposta. Distingo sempre os livros entre ficção e científicos. Os primeiros como fonte de prazer, os segundos como aprendizagem, embora esses conceitos se intersectem. Muito resumidamente e começando pela ficção começo pelo início, com os marcantes livros da “descoberta” do mundo com a coleção de “Os Cinco”, da Enid Blyton, avançando para alguns cânones pessoais e mais adultos como “Mataram a Cotovia” de Harper Lee, “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Márquez ou a “Festa do Chibo”, de Mário Vargas Llosa, sem esquecer “Um estranho numa Terra Estranha”, de Robert Heinlein, entre uma vastidão de muitos outros que, muito provavelmente, num outro dia, com um outro estado de espírito, substituiriam os referenciados sem que nenhum deles ocupe uma importância maior ou menor no meu quadro dos afetos literários.
No campo dos livros “científicos” a mesma impossibilidade de escolher apenas um. Assim, correndo o enorme risco de deixar de fora alguns que tenham sido (ou sejam) importantes, refiro uns poucos aos quais vou retornando por prazer, dúvida, inspiração ou necessidade científica ou técnica. Começo pelo marcante “Diplomacy” de Henry Kissinger que nos descodifica muito da política internacional do séc. XX, ou “Os Descobridores”, uma perspetiva histórica e abrangente do mundo na visão de Daniel J. Boorstin, por muito simples que seja. Também “Urbanism, Colonialism and the World Economy”, de Anthony D. King e “The African City” na visão de Bill Freund, são obras que me acompanharam de perto durante um período importante do trabalho de investigação. Dos geógrafos de referência, opto por apenas referir um pelo impacto teve ao fazer-me perceber que a Geografia pode (e deve) ser uma ciência “provocadora”, Yves Lacoste e uma obra basilar da nossa ciência, o seu “La géographie, ça sert, d'abord, à faire la guerre”.
Permito-me uma deriva. Vivemos tempos difíceis com a Pandemia do COVID-19. Como tal gostaria de dar destaque a dois livros que nos dão perspetivas sobre o assunto, de leitura acessível: “Guns, Germs, and Steel – The Fates of Human Societies”, escrito pelo geógrafo Jared Diamond, que considero um livro fascinante e que nos últimos anos mais prazer me deu ler, a que acrescento “Pandemics and Global Health” de Barry Youngerman.

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?
Sublinho duas dimensões espaçadas no tempo. Como professor de Geografia tinha (e terei) um enorme prazer em revelar o mundo aos mais novos, ajudando a descodificá-lo e a integrá-lo. Nem sempre com total sucesso, mas acredito que bastas vezes tendo sido bem-sucedido no processo ensino-aprendizagem. Num segundo momento, o atual, imbuído na dinâmica autárquica, as ferramentas e o pensamento geográfico estão sempre lá. Umas vezes clara e inequivocamente projetando na ação, outras vezes mais secundário, sendo o substrato da ação e não o guia da ação. Transversalmente a estes dois momentos como investigador do Centro de Estudos em Geografia e Ordenamento do Território na (tentativa) de produção do conhecimento em diferentes áreas da Geografia.

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?
Na escola sempre. Eu era – e ainda vou sendo pelos meus ex-alunos – identificado como “o professor de Geografia”. Atualmente, sou muitas vezes apresentado por terceiros como “Geógrafo”, outras, consoante o contexto e necessidade, sou eu que faço questão em me identificar como tal.

4 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?
A um jovem diria que a Geografia é um curso que possibilita uma mundivisão pouco tradicional da maioria das ciências: mais abrangente e integrada. No final do curso sairá munido de ferramentas para compreender melhor o que se passa nas diversas escalas, desde o mundial ao local, com a agilidade intelectual necessária para cruzar e ativar informação conducente a soluções integradas não só entre as escalas como entre humano e físico. Curiosamente, este ponto forte da Geografia, é a meu ver uma das nossas fragilidades. O carácter diverso e multidisciplinar acaba por ser um obstáculo à especialização “perfeita” do geógrafo. Tenho para mim uma ideia algo romântica da profissão, na qual o geógrafo é um eterno curioso, ávido de informação. Em traços largos, é esta a mensagem que procuro passar ao meu filho que está agora na fase de escolher a licenciatura pela qual irá optar, tendo os devidos cuidados para o não influenciar em demasia. Com os geógrafos, preocupo-me mais em perceber a sua visão do mundo, do país e do seu espaço, aprendendo com ele. Não me recordo de ter encontrado alguém dedicado à Geografia que não soubesse o espaço que ocupa e tenha pensamento formado sobre o (seu) assunto, seja numa escola, numa autarquia ou numa instituição fora destes âmbitos.

5 - Queríamos pedir-lhe que escolha um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser de âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha, e comente-o, tendo em conta em particular a sua perspetiva e análise como geógrafo.
A pandemia do COVID-19 é incontornável como tema de atualidade. Simultaneamente, tem todos os ingredientes que são caros à Geografia, sendo um fenómeno que nos coloca à prova como cientistas no apoio que poderemos dar na produção de estudos e de pensamento que permita compreender a propagação e formas de contenção futuras.
A alteração dos conceitos de distância e de tempo que a evolução dos transportes nos proporcionara teve o condão de aproximar povos e culturas, mas aproximou igualmente doenças, num processo que remonta à própria origem dos seres humanos. Aquilo que há décadas ou séculos era uma doença ou surto localizado, com consequências circunscritas, consoante a distância e os obstáculos orográficos e naturais, pode, atualmente, assumir proporções desproporcionadas ao local de eclosão e, numa questão de dias, evoluir para uma escala global. Somos hoje uma sociedade em movimento que não conhece barreiras, distâncias ou tempo. Os factos são esmagadores: contabilizando apenas o turismo, nos últimos sessenta anos passámos de 25 para cerca de mil milhões de turistas anuais que geram anualmente dois mil milhões de passageiros que percorrem todos os pontos do mundo em busca do exótico, do paradisíaco, porventura apenas do diferente. Muitos destes turistas e homens de negócios, numa sociedade em que o negócio é cada vez mais uma rede global de interesses integrada, partem em viagens intercontinentais, incorporando-se sazonalmente em ecossistemas aos quais não estão integrados, adequados ou imunizados, partilham os espaços dos aviões, dos hotéis e dos aeroportos, multiplicando de forma quase infinita as probabilidades de contágio e disseminação de eventuais vírus que tenham sido contraídos.
Os vírus não conhecem fronteiras ou obstáculos políticos que do ponto de vista geográfico são “artificiais”. As políticas de segurança interna tradicionalmente implementadas pelos Estados dão prioridade ao encerramento de fronteiras e ao confinamento de eventuais casos suspeitos à quarentena. Essas medidas, importantes, são reativas. Ficam relegadas para um plano secundário o fator humano e a necessidade de intervenção nas suas causas, nomeadamente o desajustamento entre sistemas de saúde, o que afeta com particular impacto os países menos desenvolvidos e as formas de cooperação internacional, ou seja, é importante mais apoio ao desenvolvimento humano e melhores formas de cooperação e comunicação internacional preventivas e proactivas e menos reativas.

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?
No contexto atual a recomendação é simples e direta: fique em casa. Não saia, proteja-se, proteja-nos. Encaremos o isolamento a que estamos obrigados – aqueles que o podem – como uma oportunidade formativa, de crescimento e de tolerância. Aproveite para viajar através da leitura. A palavra e imaginação dos escritores leva-nos a outros lugares, tempos e mundos. Aproveitemos para, lendo, sonhar e sorrir, refugiarmo-nos no santuário da imaginação e, assim, visitar outros espaços. Ou, lendo artigos e livros científicos ficarmos a conhecer melhor as temáticas que nos interessam. Depois teremos todo um tempo para nos maravilharmos e partirmos à descoberta do fantástico mundo que nos rodeia.